A performance Míra Yí, concebida pelos artistas indígenas Jaú Tupinambá e Mainuma Kokama, será apresentada nos dias 15 e 16 de agosto de 2026 em territórios indígenas de Manaus. A programação também terá um ensaio aberto nesta sexta-feira (14), às 15h, no Balneário do Léo, próximo ao Flutuante Anaconda, no Parque das Tribos, no Tarumã-Açu.
As apresentações vão ocorrer em dois pontos da capital amazonense. No sábado (15), às 14h, a obra será levada à Comunidade Nossa Senhora do Livramento, na zona rural de Manaus. No domingo (16), às 11h, a performance será apresentada na Praia da Lua, na margem esquerda do Rio Negro.
A criação utiliza performance e dança para abordar a relação entre povos indígenas amazônicos, rios, memória, território e ancestralidade. O projeto foi contemplado pelo Edital de Fomento Cultural Multilinguagens, da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas (SEC/AM), com recursos do Governo Federal por meio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).
Programação ocorre em três momentos
A programação começa com o ensaio aberto de Míra Yí no dia 14 de agosto, às 15h, no Balneário do Léo, localizado próximo ao Flutuante Anaconda, no Parque das Tribos, na zona oeste de Manaus.
A atividade antecede as duas apresentações oficiais da obra. A primeira será realizada no dia 15, às 14h, na Comunidade Nossa Senhora do Livramento, localizada na zona rural da capital.
No dia seguinte, 16 de agosto, a performance chega à Praia da Lua, na margem esquerda do Rio Negro. A escolha dos locais faz parte da própria proposta artística, que relaciona a criação aos territórios e às águas que fazem parte da vida das comunidades.
O trabalho não se limita à apresentação em espaços culturais convencionais. A proposta leva a performance para locais onde a relação com rios, igarapés e territórios indígenas integra o cotidiano das populações.
Leia também: Teatros da Amazônia são reconhecidos como Patrimônio da Humanidade
O significado de Míra Yí
O nome Míra Yí vem do Nheengatu e pode ser compreendido como “gente da água” ou “corpo-água”. A expressão resume um dos conceitos centrais da criação: a relação entre o corpo indígena, o território e os rios.
Na obra, dois seres das águas deixam o ambiente fluvial e chegam à terra. A mudança de espaço é utilizada como elemento cênico para abordar ameaças que atingem os rios amazônicos.
Segundo Jaú Tupinambá, integrante do povo Tupinambá e um dos idealizadores da performance, a obra parte da compreensão de que a existência das comunidades está diretamente relacionada às águas.
A criação também incorpora a memória de Shirley Baré, artista conhecida como Rionegrina, cuja frase “a vida é um rio” atravessa a concepção da performance. A referência está associada aos temas de corpo, território, ancestralidade e água.
Rios amazônicos fazem parte da pesquisa
O processo de criação de Míra Yí foi desenvolvido a partir das experiências dos artistas com diferentes rios amazônicos. Entre os locais relacionados à pesquisa está o Rio Guajará, no Pará, um braço do Rio Tocantins e parte da história do povo Tupinambá.
A região do Rio Guajará convive com impactos relacionados à Usina Hidrelétrica de Tucuruí e com discussões sobre novas atividades de exploração na região, incluindo o Pedral de Lourenço e o empreendimento denominado “Arco Norte”.
A pesquisa também considera a relação de Mainuma Kokama com o Alto e Baixo Rio Solimões. Segundo a artista, problemas como desmatamento e garimpo ilegal fazem parte das questões ambientais que afetam territórios e recursos hídricos da região.
Outro elemento presente na criação é o tambaqui, espécie de importância cultural e econômica para populações amazônicas. A obra relaciona a situação dos rios e igarapés às mudanças que atingem espécies aquáticas e comunidades que dependem desses ambientes.
Crise climática também está presente
A crise climática é outro eixo abordado pela performance. O Amazonas enfrentou, em 2023 e 2024, períodos de seca severa, com impactos sobre rios, comunidades e espécies aquáticas.
Durante o período de estiagem, foram registrados episódios de mortandade de peixes e de botos na região amazônica. A situação evidenciou os efeitos da redução do nível dos rios sobre os ecossistemas aquáticos.
A relação entre seca e vida cotidiana também está presente na escolha dos territórios onde Míra Yí será apresentada. A vazante dos rios pode interferir no deslocamento de moradores, no transporte de alimentos e medicamentos, na pesca, no cultivo e em atividades relacionadas ao turismo de base comunitária.
Dessa forma, a água é tratada na obra não apenas como elemento ambiental, mas como parte da organização social e territorial das comunidades amazônicas.
Parque das Tribos reúne cerca de 35 etnias
O primeiro local da programação, o Parque das Tribos, no Tarumã-Açu, reúne aproximadamente 35 etnias indígenas, de acordo com as informações do projeto.
O território é reconhecido como o primeiro bairro indígena do Amazonas e está situado na zona oeste de Manaus. A área também enfrenta desafios relacionados à infraestrutura, ao saneamento e à preservação ambiental.
Entre os problemas apontados estão o acúmulo de lixo, ameaças às nascentes e alterações na qualidade da água do Rio Tarumã e de seus igarapés.
A realização do ensaio aberto nesse território aproxima a obra do ambiente que integra sua pesquisa. A água e as condições ambientais locais passam a fazer parte não apenas do tema da apresentação, mas também do contexto em que o público terá contato com o trabalho.
Comunidade Nossa Senhora do Livramento
A segunda atividade será realizada na Comunidade Nossa Senhora do Livramento, na zona rural de Manaus, no sábado (15).
Na comunidade, a relação com os rios interfere diretamente na mobilidade e no acesso a serviços. Durante períodos de vazante extrema, a navegação pode ser prejudicada, afetando o transporte de pessoas, alimentos e medicamentos.
A pesca, o cultivo e o turismo de base comunitária também podem sofrer impactos quando os níveis dos rios diminuem significativamente.
A apresentação de Míra Yí nesse território estabelece uma conexão entre a linguagem artística e experiências vivenciadas pela população que depende diretamente das águas para atividades cotidianas.
Praia da Lua recebe apresentação no domingo
No domingo (16), a performance será apresentada às 11h na Praia da Lua, localizada na margem esquerda do Rio Negro.
A escolha do espaço mantém a proposta de realizar as atividades em áreas diretamente relacionadas às águas amazônicas. O Rio Negro é um dos principais cursos d’água da região e integra a dinâmica ambiental, social e econômica de Manaus.
Com a apresentação na Praia da Lua, o projeto encerra a programação de agosto em um espaço onde a presença do rio também é parte da experiência do público.
Equipe reúne artistas indígenas e profissionais da cultura
A concepção geral de Míra Yí é assinada por Jaú Tupinambá e Mainuma Kokama (Tainá Andes).
A equipe conta ainda com Vívian di Oliveira, responsável pela sonoplastia; Francis Baiardi, na provocação de criação; Amadeu Sateré Apurinã, no grafismo corporal; Claudia Baré, no figurino; e Davi Martins Baima, nos adereços cênicos e máscaras.
Adriano Teixeira assina fotografia e design visual. Joel Sateré e Samara Souza atuam como videomakers, enquanto Osvaldo Baré é responsável pela interpretação em Libras.
A produção executiva é de Viviane Palandi, com Jady Castro na assistência de produção.
O projeto recebeu recursos por meio do Edital de Fomento Cultural Multilinguagens, iniciativa da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas e do Governo Federal, dentro da Política Nacional Aldir Blanc.
Serviço
Performance Míra Yí – Manaus
Ensaio aberto
Data: 14 de agosto de 2026
Horário: 15h
Local: Balneário do Léo, próximo ao Flutuante Anaconda, Parque das Tribos, Tarumã-Açu
Apresentação 1
Data: 15 de agosto de 2026
Horário: 14h
Local: Comunidade Nossa Senhora do Livramento, zona rural de Manaus
Apresentação 2
Data: 16 de agosto de 2026
Horário: 11h
Local: Praia da Lua, margem esquerda do Rio Negro
A programação integra uma iniciativa cultural que utiliza a linguagem da performance para abordar a relação entre povos indígenas, águas, território e memória. As atividades também levam a produção artística para espaços diretamente relacionados às questões que orientam a criação.





