Um estudo publicado na revista científica Science alerta que o fim da Moratória da Soja pode provocar o desmatamento adicional de 1,4 milhão de hectares da Amazônia nos próximos dez anos. O tema ganha relevância porque quatro ações relacionadas ao acordo voltam à pauta do Supremo Tribunal Federal (STF), com julgamento previsto para começar em 12 de agosto.
Segundo a pesquisa, a perda florestal representaria um aumento de 17% em relação às taxas históricas de desmatamento e resultaria na emissão de aproximadamente 745 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e), volume semelhante às emissões anuais do Canadá. O estudo foi elaborado por pesquisadores da WWF-Brasil, Greenpeace Brasil, Land Conservation Association e universidades dos estados de Wisconsin e Illinois, nos Estados Unidos.
O que é a Moratória da Soja
A Moratória da Soja é um acordo voluntário firmado em 2006 entre empresas do agronegócio, organizações da sociedade civil e o governo federal. O compromisso estabelece que empresas signatárias não compram soja produzida em áreas da Amazônia desmatadas após julho de 2008.
O objetivo é impedir que a expansão da cultura da soja contribua para o avanço do desmatamento no bioma amazônico, conciliando a produção agrícola com a preservação ambiental.
Desde sua criação, o acordo passou a ser considerado uma das principais iniciativas privadas de combate ao desmatamento associado às cadeias produtivas.
Estudo aponta aumento da pressão sobre a floresta
De acordo com o artigo publicado na Science, o encerramento da Moratória da Soja poderá ampliar significativamente a pressão sobre áreas de floresta ainda preservadas.
Os pesquisadores estimam que até 28,7 milhões de hectares de florestas públicas poderão sofrer maior pressão, especialmente em regiões com potencial de expansão agrícola e implantação de infraestrutura.
O estudo também projeta que a eliminação do acordo poderá gerar a conversão adicional de 1,4 milhão de hectares de floresta ao longo da próxima década.
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Pesquisa destaca resultados obtidos pela Moratória
Além das projeções futuras, os pesquisadores analisaram os efeitos já alcançados pela Moratória da Soja desde sua implantação.
Segundo o levantamento, nos dez primeiros anos de vigência do acordo houve uma redução de 35% do desmatamento nas áreas consideradas de maior risco para a expansão da cultura da soja.
A estimativa é que aproximadamente 1,8 milhão de hectares de floresta amazônica deixaram de ser desmatados graças ao mecanismo de controle adotado pelo setor.
Para o pesquisador Tiago Reis, da WWF-Brasil, os resultados demonstram que é possível ampliar a produção agrícola mantendo critérios de conservação ambiental.
Áreas já abertas poderiam atender à expansão agrícola
Outro ponto abordado pela pesquisa diz respeito ao potencial de expansão da produção sem necessidade de novos desmatamentos.
Os pesquisadores identificaram cerca de 1,7 milhão de hectares de áreas já abertas e consideradas aptas para o cultivo da soja na Amazônia.
Segundo o estudo, essa disponibilidade permitiria aumentar a produção agrícola utilizando áreas já antropizadas, reduzindo a necessidade de abertura de novas áreas de floresta.
Impactos econômicos também foram analisados
O estudo também avaliou críticas feitas ao acordo relacionadas aos possíveis prejuízos econômicos para os produtores rurais.
Segundo os pesquisadores, apenas 739 mil hectares de áreas aptas ao cultivo de soja foram legalmente desmatados após 2008, sendo que a maior parte dessas áreas não pertence a propriedades produtoras de soja.
A publicação também afirma que não foram identificadas evidências de distorções de mercado ou redução dos preços pagos aos produtores em municípios abrangidos pela Moratória quando comparados a regiões sem a aplicação do acordo.
Os autores defendem que a adoção de critérios ambientais fortalece a competitividade da cadeia produtiva diante das exigências internacionais por rastreabilidade e sustentabilidade.
STF retomará julgamento em agosto
A discussão sobre a validade da Moratória da Soja também está no Supremo Tribunal Federal.
Quatro ações judiciais relacionadas ao acordo voltam à pauta da Corte após o encerramento de uma tentativa de mediação conduzida pelo STF entre representantes do agronegócio, Ministério Público, ambientalistas e setor industrial.
O julgamento está previsto para começar em 12 de agosto.
Entre os processos está a análise da decisão liminar do ministro Flávio Dino, que suspendeu ações judiciais e procedimentos administrativos que questionavam a Moratória da Soja.
O Supremo também julgará Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) que discutem a validade de uma lei do Mato Grosso que retira incentivos fiscais e doações de terrenos públicos para empresas que aderem ao acordo.
Mudanças no setor marcaram o início de 2026
Em 5 de janeiro de 2026, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) anunciou oficialmente sua desfiliação da Moratória da Soja.
A entidade representa empresas como Cargill, Bunge e ADM, que atuam na comercialização e processamento do grão no Brasil.
A saída da associação intensificou o debate jurídico e ambiental sobre o futuro do acordo e seus impactos para a produção agrícola e para a conservação da Amazônia.
Com o julgamento previsto para agosto, a decisão do STF poderá influenciar diretamente o futuro da Moratória da Soja e das políticas de controle do desmatamento associadas à cadeia produtiva do grão no país.






