Saneamento em Manaus ainda enfrenta desafios históricos

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A falta de saneamento em Manaus, problema já apontado no início dos anos 1990, continua sendo um dos principais desafios da infraestrutura urbana da capital amazonense. Estudos técnicos elaborados à época alertavam para o déficit no abastecimento de água, ausência de rede de esgoto e descarte inadequado de resíduos sólidos. Mais de três décadas depois, apesar dos avanços registrados em abastecimento e obras estruturantes, a cobertura de esgotamento sanitário ainda atende apenas 40% da população da cidade.

O tema voltou ao debate após a divulgação de informações sobre um estudo desenvolvido em 1992 pelo então estudante de Engenharia Civil Marcellus Campêlo, na antiga Universidade de Tecnologia da Amazônia (UTAM), atual Universidade do Estado do Amazonas. O trabalho analisava a destinação final do lixo urbano em Manaus e alertava para os impactos ambientais e sanitários provocados pela ausência de políticas adequadas de saneamento.

Crescimento desordenado agravava crise urbana

No início da década de 1990, Manaus enfrentava um crescimento populacional acelerado e expansão urbana sem infraestrutura suficiente para acompanhar a demanda. Segundo dados do Plano Municipal de Saneamento Básico de Manaus (PMSBM), mais de 35% da população urbana não tinha acesso à água encanada naquele período.

Em bairros periféricos e ocupações irregulares, moradores dependiam de poços improvisados e cacimbas sem controle sanitário. Relatórios epidemiológicos da época apontavam riscos frequentes de doenças relacionadas ao consumo de água contaminada.

Além da falta de abastecimento regular, praticamente todo o esgoto produzido na cidade era despejado sem tratamento nos igarapés da capital. Estudos da Universidade Federal do Amazonas e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia indicavam que os igarapés do Mindu e do 40 estavam entre os mais afetados pela poluição urbana.

Lixão a céu aberto gerava impactos ambientais

O estudo desenvolvido por Marcellus Campêlo em 1992 teve como foco a destinação do lixo urbano em Manaus. Na época, os resíduos sólidos da capital eram descartados em um lixão a céu aberto localizado no quilômetro 19 da rodovia AM-010.

Relatórios do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas apontavam problemas como contaminação do solo por chorume, queima irregular de resíduos e proliferação de vetores transmissores de doenças.

O trabalho acadêmico ganhou repercussão regional e foi tema de reportagem do jornal A Crítica nos anos 1990, chamando atenção para os impactos do crescimento urbano desordenado e da ausência de infraestrutura sanitária adequada na capital amazonense.

“Quando estudei a destinação do lixo de Manaus, nos anos 90, o saneamento ainda era um tema pouco discutido. Hoje, continua sendo um desafio para o desenvolvimento do Amazonas e a realidade ainda é muito preocupante”, afirmou Campêlo.

Cobertura de água avançou, mas esgoto ainda preocupa

Dados mais recentes mostram avanço significativo no abastecimento de água em Manaus. Atualmente, cerca de 99% da população possui acesso ao serviço, segundo informações citadas no levantamento.

Apesar disso, a cobertura de esgotamento sanitário permanece abaixo do necessário para universalização. Dados do Instituto Trata Brasil indicam que apenas 40% da população da capital possui acesso à rede de esgoto.

A situação é considerada um dos principais gargalos do saneamento básico no Amazonas, especialmente em áreas periféricas e comunidades vulneráveis. O problema também se repete em municípios do interior do estado, onde há déficit histórico de infraestrutura urbana e sanitária.

Segundo especialistas da área, a baixa cobertura de esgoto impacta diretamente indicadores de saúde pública, qualidade ambiental e preservação dos recursos hídricos urbanos.

Programas estaduais ampliaram obras de infraestrutura

Entre 2019 e março de 2026, durante o período em que esteve à frente da Sedurb e da Unidade Gestora de Projetos Especiais (UGPE), Marcellus Campêlo coordenou projetos ligados à ampliação do abastecimento de água, implantação de redes de esgotamento sanitário e drenagem urbana.

Entre as iniciativas desenvolvidas estão o Programa Social e Ambiental de Manaus e Interior (Prosamin+) e o Programa de Saneamento Integrado (Prosai).

Em Manaus, o Prosamin+ implantou aproximadamente 100 quilômetros de redes de coleta de esgoto, com previsão de alcançar 160 quilômetros até 2027. O programa também concluiu a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do Educandos, considerada a maior da região Norte.

Outra estrutura implantada foi a ETE Raiz, construída pela concessionária Águas de Manaus em área cedida pelo Governo do Amazonas.

Com as obras, a cobertura de esgotamento sanitário da capital avançou de 35% para 40%, segundo os dados apresentados.

Interior do Amazonas também enfrenta déficit histórico

No interior do estado, os programas buscaram reduzir déficits históricos de saneamento em municípios com menor capacidade financeira e operacional.

No município de Maués, o Prosai ampliou a cobertura de esgotamento sanitário para mais de 50% da cidade e elevou a capacidade de armazenamento de água de 227 mil litros para 1,7 milhão de litros.

Já em Parintins, onde as obras começaram em 2024, o programa implantou melhorias no abastecimento de água tratada e iniciou a construção da rede de esgoto, que deve elevar a cobertura de zero para 25%.

Outra medida adotada foi a criação da Microrregião de Saneamento Básico (MRSB), formada pelo estado e os 61 municípios do interior, para atuação compartilhada na regulação e planejamento do setor.

Universalização ainda depende de investimentos

Especialistas apontam que a universalização do saneamento na região Norte depende de investimentos contínuos, planejamento integrado e cooperação entre municípios, estado e União.

Segundo Campêlo, o déficit acumulado ao longo de décadas continua sendo o principal obstáculo para expansão dos serviços em comunidades periféricas, áreas ribeirinhas e cidades do interior.

“Sem planejamento e engenharia qualificada, os projetos travam, ficam mais caros ou não se sustentam ao longo do tempo”, afirmou.

A legislação brasileira estabelece que os serviços de saneamento são de responsabilidade dos municípios. No entanto, estados podem atuar de forma complementar, oferecendo apoio técnico e operacional para implantação de projetos estruturantes.

O debate sobre saneamento básico ganhou ainda mais relevância nos últimos anos diante da relação direta entre acesso à água tratada, coleta de esgoto e indicadores de saúde pública, especialmente em regiões urbanas de crescimento acelerado como Manaus.

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