O Setembro Amarelo chama atenção para a prevenção do suicídio, mas o cuidado com a saúde mental precisa ir além dos momentos de crise. Em entrevista ao Portal Furacão de Notícias, a psicóloga Thayná Glória destacou que prevenir também significa reconhecer o sofrimento psicológico, fortalecer vínculos, criar espaços de escuta e permitir que a pessoa procure ajuda antes de chegar ao limite.
Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou 16.207 mortes por suicídio em 2023, conforme dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). No Amazonas, a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) registrou 332 mortes no mesmo ano, com taxa de mortalidade de 7,8 óbitos por 100 mil habitantes. O número representou aumento de 12% em relação a 2022.
Os dados mostram que a prevenção do suicídio é uma questão de saúde pública e exige atenção contínua, não apenas durante o mês de setembro.
Prevenção começa antes da crise
Para Thayná, o Setembro Amarelo deve estimular uma atenção permanente à saúde mental. A campanha, segundo ela, também é uma oportunidade para falar sobre sofrimento psicológico antes que uma situação chegue ao extremo.
“O Setembro Amarelo nos alerta sobretudo a cuidar da vida antes que ela chegue ao limite”, afirmou.
De acordo com a psicóloga, prevenir significa falar sobre sofrimento psíquico, criar espaços de escuta e acolhimento, fortalecer vínculos e possibilitar que uma pessoa peça ajuda quando perceber que não está conseguindo lidar sozinha com determinada situação.
O sofrimento também pode se acumular ao longo do tempo sem ser percebido pelas pessoas próximas. Por isso, a construção de redes de apoio e a abertura para conversar são importantes no processo de prevenção.
A abordagem também está relacionada ao trabalho de vigilância realizado pelos serviços de saúde. O Ministério da Saúde acompanha os óbitos por meio do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), enquanto as notificações de agravos são registradas no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).
Homens enfrentam barreiras para buscar ajuda
A relação entre saúde mental e masculinidade também foi abordada durante a entrevista. Para Thayná, parte da resistência de homens em procurar ajuda está relacionada à forma como muitos são ensinados desde cedo a lidar com as próprias emoções.
“Muitos homens aprendem desde cedo que precisam ser fortes, carregar o mundo nos ombros, não demonstrar vulnerabilidade e dar conta de tudo sozinhos”, explicou.
Os dados do Amazonas ajudam a dimensionar essa diferença. Dos 332 óbitos por suicídio registrados no estado em 2023, 78,6% ocorreram entre homens, segundo a FVS-RCP.
Para a psicóloga, esse cenário reforça a necessidade de mudar a maneira como o cuidado emocional é apresentado ao público masculino.
“Pedir ajuda deveria ser visto como um ato de coragem, mas infelizmente por muitos ainda é visto como uma espécie de fracasso ou fraqueza”, afirmou.
Thayná defende que a psicoterapia seja compreendida como uma ferramenta de cuidado e não como sinal de incapacidade.
“Fazer terapia não é sinal de que você não dá conta da vida. É justamente criar recursos pra que você consiga lidar com ela de uma forma mais consciente e saudável”, disse.
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Nem sempre o sofrimento é percebido
Uma pessoa que enfrenta sofrimento psicológico nem sempre apresenta sinais evidentes para familiares, amigos ou colegas. Segundo Thayná, alguém pode continuar trabalhando, estudando, mantendo relacionamentos e cumprindo suas responsabilidades enquanto enfrenta dificuldades internamente.
Entre os sinais que podem aparecer estão mudanças de humor, irritabilidade, isolamento, alterações no sono, perda de interesse por atividades, excesso de trabalho e mudanças na maneira de cuidar de si.
A psicóloga também chama atenção para a necessidade de permanecer constantemente ocupado como uma possível forma de evitar o contato com aquilo que está sendo sentido.
Por isso, não é necessário esperar que alguém “pareça mal” para demonstrar preocupação. Escutar, estar presente e oferecer abertura para uma conversa podem ajudar a fortalecer vínculos e facilitar a busca por ajuda profissional.
Como abordar alguém em sofrimento
Uma situação comum pode ocorrer quando familiares ou amigos percebem mudanças no comportamento de uma pessoa, mas ela afirma que está tudo bem.
Nesse momento, segundo Thayná, transformar a preocupação em cobrança pode fazer com que a pessoa se feche ainda mais.
Em vez de afirmar que alguém “não está bem” ou determinar que essa pessoa “precisa fazer terapia”, a orientação é partir do que foi observado e demonstrar preocupação.
A ideia é oferecer presença e disponibilidade para ouvir, deixando claro que a pessoa não precisa enfrentar as dificuldades sozinha.
Essa abordagem também ajuda a evitar que a psicoterapia seja encarada apenas como um último recurso, procurado quando o sofrimento já chegou a níveis extremos. A terapia pode ser um espaço para compreender sentimentos, experiências e dificuldades antes que uma situação se agrave.
Redes sociais também podem afetar a autoestima
Outro tema abordado na entrevista foi a relação entre redes sociais, comparação e saúde mental.
As plataformas digitais apresentam, muitas vezes, versões selecionadas da vida das pessoas. Para Thayná, isso pode estimular comparações e contribuir para sentimentos de inadequação.
“A gente compara o nosso bastidor com o palco de alguém”, resumiu.
As redes sociais também podem criar conexão, comunidades e espaços de convivência. O problema aparece quando aquilo que é visto nas plataformas passa a ser utilizado como medida do próprio valor.
A comparação pode levar uma pessoa a acreditar que os outros estão avançando, viajando, trabalhando, produzindo ou mantendo uma vida melhor enquanto ela própria não consegue acompanhar esse ritmo.
Nesse contexto, é importante considerar que o conteúdo publicado nas redes não representa necessariamente toda a experiência de quem está do outro lado da tela.
Dados reforçam alerta no Amazonas
Além das 332 mortes por suicídio, o Amazonas registrou 761 notificações de lesões autoprovocadas em 2023, segundo a FVS-RCP.
A taxa chegou a 19,8 notificações por 100 mil habitantes, a maior da série apresentada no boletim desde 2018.
Do total de notificações, 61,6% envolveram mulheres, enquanto a faixa etária de 20 a 29 anos representou 31,8% dos registros.
Outro dado apresentado pela FVS-RCP aponta que 39,2% das pessoas notificadas por lesão autoprovocada em 2023 tinham histórico de autoagressão ou tentativa anterior de suicídio. A maior parte das ocorrências notificadas aconteceu em residências.
A fundação ressalta que o crescimento das notificações também pode estar relacionado à maior capacidade de identificação e registro dos casos pelos serviços de saúde.
A FVS-RCP destaca ainda que a prevenção deve ocorrer durante todo o ano, com a participação dos serviços de saúde, profissionais, sociedade e diferentes setores da administração pública.
Saúde mental não significa estar bem o tempo todo
Ao encerrar a entrevista ao Portal Furacão de Notícias, Thayná reforçou que cuidar da saúde mental não significa estar bem o tempo inteiro ou não enfrentar dificuldades.
“Saúde mental não é sobre estar bem o tempo inteiro. É sobre poder reconhecer o que a gente sente e entender nossos limites”, afirmou.
Para a psicóloga, o cuidado passa pela capacidade de reconhecer emoções, compreender os próprios limites e buscar apoio quando necessário.
A mensagem também se relaciona ao propósito do Setembro Amarelo, que busca ampliar o diálogo sobre prevenção do suicídio, reduzir o estigma e estimular a busca por ajuda.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) utiliza, no ciclo 2024–2026, o tema “Changing the Narrative on Suicide”, que propõe mudanças na forma de abordar o suicídio, com enfrentamento do estigma e estímulo a conversas abertas, responsáveis e acolhedoras.
Onde buscar ajuda
Quem precisar conversar pode procurar o Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo telefone 188. O atendimento é gratuito, funciona 24 horas por dia e oferece escuta sigilosa e sem julgamentos. O serviço também disponibiliza atendimento por chat e e-mail.
Em situações de emergência ou risco imediato, a orientação é procurar um serviço de urgência e emergência ou acionar os serviços de emergência disponíveis na região.
O Setembro Amarelo, portanto, pode ser mais do que uma campanha concentrada em setembro. A data representa uma oportunidade para ampliar durante todo o ano o diálogo sobre saúde mental, fortalecer redes de apoio e tornar a busca por ajuda uma possibilidade acessível antes que o sofrimento chegue ao limite.







