Manaus voltou a registrar fumaça intensa nesta sexta-feira (9 de outubro de 2026), em meio à piora da qualidade do ar provocada pela presença de partículas finas na atmosfera. Na véspera, medições atribuídas ao Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (SELVA), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), chegaram a 490,1 microgramas de partículas finas por metro cúbico (µg/m³) em um ponto da capital. A imprensa local também noticiou o envio de um alerta severo da Defesa Civil aos celulares, mas a confirmação oficial desse aviso específico não foi localizada durante a apuração.
O episódio ocorre em um período de aumento dos focos de calor no Amazonas. De acordo com boletim do Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM), elaborado com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o estado registrou 644 focos entre 1º e 7 de outubro de 2026, contra 277 no mesmo intervalo de 2025, um aumento de 132,5%.
Qualidade do ar em Manaus chega a níveis críticos
O registro de 490,1 µg/m³ de partículas finas foi divulgado por veículos de comunicação locais com base em dados atribuídos ao SELVA/UEA. O valor corresponde a uma medição pontual e não deve ser interpretado como a concentração média de poluentes em toda Manaus.
As medições divulgadas pela Prefeitura também indicaram oscilações importantes na qualidade do ar. Na noite de 7 de outubro, a concentração de partículas finas PM2,5 chegou a 114,6 µg/m³. Na manhã do dia 8, às 8h50, o índice informado pelo município era de 73,65 µg/m³.
Os números foram registrados em horários e pontos de monitoramento que podem ser diferentes. Por isso, não é adequado compará-los como se representassem uma única estação ou uma média diária da capital.
A classificação da qualidade do ar também varia conforme o sistema utilizado. A plataforma internacional IQAir chegou a posicionar Manaus no topo de seu ranking de cidades brasileiras monitoradas, com índice AQI⁺ US de 309, classificado como perigoso. Como a lista é atualizada continuamente e depende dos dados disponíveis, o resultado precisa ser associado ao horário da consulta.
Prefeitura aponta queimadas no interior do Amazonas
Em comunicados divulgados nos dias 7 e 8 de outubro, a Prefeitura de Manaus atribuiu a fumaça observada na capital principalmente a queimadas em municípios do interior do estado.
Entre as localidades citadas pela administração municipal estão Itacoatiara, Careiro da Várzea, Manaquiri e Autazes. No comunicado do dia seguinte, Itacoatiara recebeu destaque como uma das áreas de origem da fumaça que chegou à capital.
A presença de fumaça em Manaus não significa, necessariamente, que todos os focos de incêndio estejam dentro dos limites da cidade. A fumaça pode ser transportada por correntes atmosféricas a partir de áreas distantes.
A contribuição exata de cada município ou incêndio para a poluição registrada na capital, porém, não foi quantificada nas informações consultadas. Assim, a origem apontada pela Prefeitura deve ser apresentada como informação atribuída ao órgão municipal, sem afirmar que um único local explica todo o episódio.
Focos de calor aumentam no Amazonas em relação a 2025
O boletim de monitoramento ambiental divulgado pelo MPC-AM em 8 de outubro, com dados do Inpe, apontou crescimento dos focos de calor no Amazonas em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Entre 1º e 7 de outubro de 2026, foram registrados 644 focos, ante 277 no mesmo intervalo de 2025. A diferença representa aumento de 132,5%.
No acumulado de 1º de janeiro a 7 de outubro, o estado contabilizou 6.901 focos de calor em 2026. No período equivalente de 2025, haviam sido registrados 3.559, o que representa crescimento de 93,9%.
Os dados são provenientes de detecções por satélite. Um foco de calor não corresponde necessariamente a um incêndio individual, pois uma mesma ocorrência pode gerar registros distintos, dependendo das condições de observação.
Embora os números indiquem aumento das detecções, eles não permitem, isoladamente, determinar a quantidade de fumaça que atingiu Manaus nem estabelecer a contribuição de cada incêndio para os índices de poluição medidos na capital.
Incêndio no Distrito Industrial também foi registrado
Outro episódio relatado em Manaus foi um incêndio em uma área de vegetação e descarte irregular de resíduos no Distrito Industrial II, na zona Leste da capital.
Segundo reportagens publicadas em 8 de outubro, o fogo atingiu materiais como plásticos, borrachas, papéis e solventes. As mesmas publicações informaram que o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) aplicou multa de R$ 5,5 milhões ao responsável pelo terreno.
Apesar da ocorrência, não foi localizada uma medição oficial que quantifique a participação desse incêndio nos níveis gerais de poluição registrados em Manaus. O caso deve, portanto, ser tratado como um episódio relacionado ao contexto ambiental da cidade, sem atribuir a ele, de forma exclusiva, a fumaça que encobriu a capital.
Fumaça pode agravar problemas respiratórios
A exposição à fumaça de queimadas preocupa autoridades de saúde por causa da presença de partículas finas e outros poluentes que podem atingir o sistema respiratório. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares estão entre os grupos que exigem atenção especial.
A Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) recomendou a redução da exposição à fumaça e orientou a população a evitar exercícios físicos ao ar livre nos períodos de pior qualidade do ar. A pasta também destacou a importância de manter a hidratação e utilizar proteção respiratória adequada quando a exposição for inevitável.
O Ministério da Saúde recomenda que, durante episódios de fumaça intensa, as pessoas permaneçam em ambientes fechados sempre que possível. Também orienta manter portas e janelas fechadas nos períodos de maior concentração de poluentes e utilizar máscaras do tipo N95, PFF2 ou P100, corretamente ajustadas, quando houver necessidade de sair.
Pessoas com tosse persistente, chiado no peito, irritação na garganta ou falta de ar devem procurar atendimento de saúde. Em situações de emergência, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pode ser acionado pelo telefone 192.
Prefeitura já havia colocado Manaus em estado de atenção
Em 23 de setembro, o prefeito de Manaus, Renato Junior, reuniu o Comitê de Crise Climática no Centro de Cooperação da Cidade e colocou a capital em estado de atenção devido à qualidade do ar.
Segundo a Prefeitura, as medidas anunciadas incluíam monitoramento de focos de incêndio com drones, ações de prevenção a queimadas na zona rural e reforço da arborização urbana.
Já em 7 de outubro, o MPC-AM informou ter encaminhado ao Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) uma representação para que fossem avaliadas a suficiência e a efetividade das ações do governo estadual no combate às queimadas, aos incêndios florestais e à poluição atmosférica.
O encaminhamento de uma representação é uma iniciativa de fiscalização e não significa, por si só, que tenha sido comprovada alguma irregularidade. Eventuais conclusões dependem da análise dos órgãos competentes.
Alerta severo da Defesa Civil precisa de confirmação oficial
A imprensa local noticiou que moradores receberam um alerta severo da Defesa Civil em seus celulares na sexta-feira (9). Segundo os relatos publicados, a mensagem orientava a população a utilizar máscara ao sair de casa e evitar a exposição à fumaça.
Entretanto, não foi localizada, durante esta apuração, uma publicação oficial que confirme especificamente o envio desse alerta, seu horário, sua área de abrangência ou o conteúdo integral da mensagem.
Para confirmar esses detalhes, é necessário obter posicionamento da Defesa Civil ou da Prefeitura de Manaus. Até que isso ocorra, o aviso deve ser atribuído às reportagens que o divulgaram, e não apresentado como uma informação oficialmente confirmada pelo órgão.
A situação reforça a necessidade de acompanhar os comunicados da Defesa Civil e das autoridades de saúde, além dos dados atualizados de monitoramento da qualidade do ar.








