Novo Desenrola: juros altos pressionam endividamento das famílias

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O governo federal lançou nesta semana o Novo Desenrola Brasil, programa voltado à renegociação de dívidas de famílias, estudantes e pequenos empreendedores. A iniciativa surge em um cenário de aumento do endividamento no país, impulsionado pela manutenção da taxa Selic em patamar elevado e pelos altos juros cobrados pelas instituições financeiras.

Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 80% das famílias brasileiras estavam endividadas em abril de 2026, o maior percentual da série histórica. Entre os lares com renda de até três salários mínimos, o índice chegou a 83,6%.

A nova etapa do programa terá duração de 90 dias e prevê descontos de até 90% no valor das dívidas, além de juros reduzidos e possibilidade de uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para abatimento dos débitos.

Selic elevada e juros bancários pressionam orçamento

Especialistas apontam que o elevado custo do crédito tem sido um dos principais fatores para o crescimento do endividamento.

Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, a taxa Selic foi reduzida em 0,25 ponto percentual, passando para 14,5% ao ano. Apesar da queda, o Brasil segue com uma das maiores taxas de juros reais do mundo.

Além da Selic, outro fator que encarece o crédito é o spread bancário, que representa a diferença entre o custo de captação dos bancos e os juros cobrados do consumidor.

Em março de 2026, o spread bancário brasileiro foi de 34,6 pontos percentuais, acima dos 29,7 pontos registrados no mesmo mês do ano anterior. Segundo o Banco Mundial, a média global gira em torno de 6 pontos percentuais.

Leia também: Novo Desenrola Brasil amplia acesso a renegociação de dívidas

Especialistas explicam relação entre juros e inadimplência

A professora de economia da Universidade de Brasília (UnB), Maria de Lourdes Mollo, afirmou à Agência Brasil que os juros elevados dificultam o funcionamento da economia e comprometem o orçamento das famílias.

Segundo a economista, muitas pessoas recorrem ao crédito para custear despesas básicas, como alimentação, transporte e saúde.

A professora Juliane Furno, da Universidade Federal Fluminense (UFF), destacou que o Brasil aparece entre os países com maior spread bancário do mundo.

Na avaliação dela, o custo elevado do crédito contribui para o aumento da inadimplência, ao mesmo tempo em que os bancos justificam os juros altos justamente pelo risco de calote.

Já Maria Mello de Malta, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmou que o cenário gera uma “bola de neve”, em que o consumidor precisa contrair novas dívidas para quitar compromissos anteriores.

Cartão de crédito continua entre os vilões

Os juros do crédito rotativo do cartão de crédito permanecem entre os mais altos do mercado e podem ultrapassar 400% ao ano.

Dados do Banco Central mostram que, em março, a taxa média cobrada das pessoas físicas chegou a 61% ao ano. Para as empresas, a média ficou em 24%.

Esses percentuais tornam mais difícil a regularização das dívidas, especialmente para famílias com menor renda.

Como funciona o Novo Desenrola Brasil

O programa lançado pelo governo federal tem como objetivo facilitar a renegociação de débitos e permitir que consumidores recuperem o acesso ao crédito.

Entre as condições anunciadas estão:

  • Descontos de até 90% sobre o valor da dívida;
  • Juros reduzidos;
  • Prazo ampliado para pagamento;
  • Possibilidade de utilização do FGTS;
  • Participação de bancos e instituições financeiras.

A adesão deverá ser feita por plataforma digital, com regras específicas definidas pelo governo e pelas instituições participantes.

Impacto esperado na economia

Ao reduzir o número de consumidores inadimplentes, o governo espera estimular o consumo e melhorar a circulação de recursos na economia.

A regularização do nome também pode facilitar o acesso a crédito em condições mais favoráveis, beneficiando trabalhadores, estudantes e pequenos empresários.

Para especialistas, o programa pode trazer alívio financeiro no curto prazo, embora o cenário de juros elevados continue sendo um desafio estrutural.

Famílias de baixa renda concentram maior nível de endividamento

A pesquisa da CNC aponta que as famílias com renda de até três salários mínimos são as mais afetadas.

Além de apresentarem o maior nível de endividamento, esse grupo também registra o maior índice de contas em atraso, de 38,2%.

O dado evidencia a maior vulnerabilidade financeira das famílias de baixa renda, que frequentemente dependem do crédito para complementar o orçamento mensal.

Próximos passos

O Novo Desenrola Brasil já está em vigor e terá duração inicial de 90 dias.

Durante esse período, consumidores poderão consultar suas dívidas, negociar condições especiais e regularizar pendências financeiras.

A expectativa do governo é beneficiar milhões de brasileiros e reduzir os impactos do endividamento sobre o consumo e a atividade econômica.

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