Nova diretriz muda tratamento da tireoide na gestação

tireoide

As recomendações para o tratamento da tireoide na gestação foram atualizadas no Brasil após novas evidências científicas sobre o uso de medicamentos hormonais durante a gravidez. Gestantes que apresentam anticorpos anti-TPO positivos, mas mantêm a função da tireoide normal, não devem receber levotiroxina de forma preventiva, segundo o novo posicionamento das sociedades médicas brasileiras.

A atualização foi apresentada nesta sexta-feira (28), no Rio de Janeiro, durante o 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, no painel “Disfunção tireoidiana na gestação: o manejo que evita danos irreversíveis”.

As novas orientações foram elaboradas pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), tendo como referência a nova diretriz da American Thyroid Association (ATA), publicada em junho de 2026.

Anticorpos positivos não significam necessidade de hormônio

A principal mudança envolve mulheres que apresentam resultado positivo para o anticorpo anti-TPO, mas possuem níveis normais dos hormônios que avaliam o funcionamento da tireoide.

Nesses casos, a orientação brasileira é não utilizar a levotiroxina, versão sintética do hormônio tireoidiano, apenas como medida preventiva. A decisão considera resultados de três grandes estudos recentes, que não identificaram redução nos riscos de aborto ou parto prematuro com o uso preventivo do medicamento nesse grupo.

Segundo Cleo Mesa Júnior, subcoordenador do Departamento de Tireoide da SBEM, a presença do anti-TPO indica uma predisposição para o desenvolvimento de alterações na tireoide, mas não significa, isoladamente, que exista hipotireoidismo.

“Se os [hormônios] TSH e o T4 livre estão normais, a mulher é considerada eutireoidiana e não há benefício comprovado em usar levotiroxina, apenas pela gestante ter o anticorpo positivo”, explicou o especialista.

Mesmo sem o uso preventivo do medicamento, essas gestantes continuarão sendo acompanhadas durante a gravidez. Isso ocorre porque a presença do anticorpo está associada a um risco maior de desenvolvimento de hipotireoidismo ao longo da gestação.

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Tratamento para quem já tinha hipotireoidismo

Para mulheres que já apresentavam hipotireoidismo antes da gravidez, a recomendação permanece diferente.

Nesses casos, a orientação é aumentar em aproximadamente 30% a dose habitual do hormônio assim que a gravidez for identificada, conforme o posicionamento apresentado pelos especialistas.

O acompanhamento médico é necessário para avaliar os níveis hormonais e ajustar a dose de acordo com as necessidades de cada paciente ao longo da gestação.

Brasil manterá rastreamento de todas as gestantes

Outra diferença importante está na estratégia de rastreamento.

Enquanto a nova diretriz da American Thyroid Association recomenda o rastreamento seletivo, baseado principalmente na presença de fatores de risco, as sociedades médicas brasileiras decidiram manter a estratégia de testar todas as gestantes desde o início da gravidez.

A medida busca identificar precocemente as mulheres que realmente apresentam alterações na função da tireoide e precisam de tratamento.

Cleo Mesa Júnior afirmou que a estratégia seletiva pode deixar de identificar gestantes com alterações tireoidianas que não apresentam os fatores considerados de risco.

“O rastreamento seletivo pode deixar de identificar algumas mulheres que apresentam alteração da tireoide, mas não possuem os fatores de risco considerados na triagem”, afirmou.

A avaliação também considera as características do sistema de saúde brasileiro e a possibilidade de dificuldade para garantir retornos médicos rápidos.

Mudança no tratamento do hipotireoidismo subclínico

O novo posicionamento também modifica a abordagem do hipotireoidismo subclínico, condição caracterizada por aumento do TSH com níveis normais de T4 livre.

Para níveis de TSH entre 4,0 e 10 mUI/L, a indicação de início do tratamento passa a ser concentrada principalmente no primeiro trimestre da gravidez.

Segundo os especialistas, esse período é especialmente importante porque, nas primeiras semanas, o desenvolvimento fetal depende mais dos hormônios tireoidianos maternos.

Quando a alteração é identificada apenas no segundo ou terceiro trimestre, a orientação é acompanhar a função da tireoide sem iniciar automaticamente a levotiroxina, exceto nos casos em que o TSH ultrapasse 10 mUI/L.

A decisão, entretanto, deve considerar os resultados dos exames e o período da gestação.

“Isso não significa deixar de tratar o hipotireoidismo fraco ou alterações importantes. A decisão deve considerar o nível do TSH, o T4 livre, e o momento da gestação”, explicou Cleo Mesa Júnior.

Exames continuam sendo importantes durante a gravidez

A atualização também aborda a necessidade de repetir exames antes de iniciar o tratamento.

A diretriz internacional recomenda repetir a avaliação do TSH após um intervalo de uma a três semanas em determinadas situações, já que algumas alterações leves podem ser transitórias durante a gestação.

No Brasil, porém, as sociedades médicas não recomendam necessariamente aguardar esse período antes de decidir pelo tratamento. A avaliação considera as características do atendimento e a possibilidade de demora para o retorno da paciente.

No Brasil, em um sistema em que nem sempre é possível garantir retorno rápido, esperar pode significar perder a janela de oportunidade para o tratamento”, afirmou o especialista.

Quais gestantes são consideradas de maior risco

Quando não for possível realizar o exame em todas as gestantes, a nova diretriz prioriza mulheres com fatores de risco mais específicos para doenças da tireoide.

Permanecem entre os principais fatores:

  • histórico de hipotireoidismo ou hipertireoidismo;
  • cirurgia ou tratamento anterior da tireoide;
  • doenças autoimunes, como diabetes tipo 1;
  • histórico familiar de doença tireoidiana;
  • infertilidade;
  • dois ou mais abortamentos;
  • uso de medicamentos que possam interferir no funcionamento da tireoide.

Por outro lado, idade materna, obesidade e número de gestações anteriores deixam de ser considerados fatores de risco isolados na nova abordagem.

Segundo a SBEM, esses critérios são muito frequentes na população e, isoladamente, apresentam baixo poder para identificar com precisão as mulheres que possuem alterações tireoidianas.

Recomendação sobre consumo de iodo também muda

O iodo é outro ponto abordado na atualização. O micronutriente é necessário para a produção dos hormônios da tireoide, e a necessidade aumenta durante a gestação e a amamentação.

A nova diretriz da American Thyroid Association recomenda garantir uma ingestão adequada de iodo, inclusive com suplementação antes da concepção.

No Brasil, entretanto, a atualização não recomenda que todas as gestantes recebam suplementos de iodo de forma automática.

A orientação é individualizar a decisão, principalmente em mulheres que apresentam risco de ingestão insuficiente do micronutriente.

Entre as situações citadas estão dietas muito restritivas, alimentação vegana, baixo consumo ou ausência de sal iodado e condições que dificultem a absorção de nutrientes.

Nesses casos, segundo o especialista, pode ser considerada suplementação de 100 a 150 microgramas de iodo por dia.

O que muda para as gestantes

As novas recomendações procuram diferenciar as situações em que existe indicação comprovada de tratamento daquelas em que o uso preventivo de hormônio não demonstrou benefício.

Para gestantes com anti-TPO positivo e função tireoidiana normal, a principal mudança é a retirada da levotiroxina preventiva, mantendo-se o acompanhamento da função da tireoide.

Já mulheres que apresentavam hipotireoidismo antes da gravidez continuam necessitando de reposição hormonal e acompanhamento para ajuste da dose.

No caso do hipotireoidismo subclínico, o momento da identificação da alteração passa a ter maior peso na decisão sobre o tratamento, especialmente durante o primeiro trimestre.

As orientações foram apresentadas pela SBEM e pela Febrasgo no congresso realizado no Rio de Janeiro e têm como referência a atualização publicada pela American Thyroid Association em 2026.

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