Mulheres negras morrem 3,8 vezes mais por câncer de mama, aponta inca

mulheres

Mulheres negras têm taxa de mortalidade por câncer de mama 3,8 vezes maior que a de mulheres brancas, segundo uma publicação do Instituto Nacional de Câncer (Inca) divulgada nesta terça-feira (27), no Rio de Janeiro. O levantamento aponta desigualdades raciais relacionadas à doença e destaca a importância de ampliar o acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento.

Intitulado Disparidades Raciais na Incidência do Câncer de Mama, o estudo é o primeiro volume da série Disparidades Raciais e Câncer de Mama: um Olhar para a Saúde das Mulheres Negras. A publicação foi apresentada durante um evento do Outubro Rosa, campanha de conscientização sobre prevenção e diagnóstico do câncer de mama.

De acordo com o Inca, embora a incidência da doença seja maior entre mulheres brancas, as mulheres negras apresentam maior mortalidade. Entre os fatores que podem contribuir para essa diferença estão as dificuldades de acesso aos serviços de saúde, a realização de exames de rastreamento e a ocorrência de subtipos mais agressivos do tumor.

Mulheres negras enfrentam maior mortalidade por câncer de mama

A coordenadora da Divisão de Detecção Precoce do Inca, Renata Maciel, explicou que a diferença entre incidência e mortalidade é um dos pontos centrais do levantamento.

Segundo ela, a maior mortalidade entre mulheres negras pode estar relacionada ao acesso ao diagnóstico precoce e às terapias oferecidas pelos serviços de saúde.

A pesquisadora também destacou que mulheres negras apresentam maior incidência do subtipo triplo-negativo, considerado mais agressivo.

Esse tipo de câncer de mama possui características biológicas específicas e pode apresentar desafios adicionais no tratamento. A publicação considera que as diferenças biológicas, associadas às desigualdades sociais e de acesso à assistência, precisam ser analisadas para compreender o cenário da doença.

Acesso à mamografia é um dos pontos de atenção

Outro aspecto destacado pelo Inca é a diferença na realização de exames de rastreamento entre mulheres negras e brancas.

Segundo Renata Maciel, há evidências de que mulheres negras realizam menos exames de rastreamento quando não apresentam sintomas da doença.

A análise considera mulheres entre 50 e 69 anos, faixa etária em que, de acordo com a coordenadora, as mulheres brancas realizam mais exames preventivos.

O rastreamento permite investigar possíveis sinais da doença antes do aparecimento de sintomas. A identificação precoce pode contribuir para que o tratamento seja iniciado em fases mais favoráveis, embora os resultados também dependam das características do tumor e das condições de atendimento.

As diferenças no acesso aos exames reforçam a necessidade de políticas que ampliem a oferta de serviços de prevenção, diagnóstico e tratamento, especialmente para grupos que enfrentam barreiras socioeconômicas.

Inca defende políticas públicas para reduzir desigualdades

O diretor-geral do Instituto Nacional de Câncer, Roberto Gil, afirmou que os resultados apontam a necessidade de políticas públicas que garantam maior equidade no atendimento à saúde.

Segundo ele, a combinação entre características biológicas potencialmente mais agressivas da doença e menor acesso aos serviços pode contribuir para diagnósticos tardios entre mulheres negras.

Durante a apresentação do estudo, Gil destacou a importância de garantir condições mais uniformes de acesso à assistência para diferentes grupos da população.

A publicação também recomenda considerar fatores relacionados à ancestralidade e à genética na investigação das diferenças raciais observadas na incidência do câncer de mama.

O documento ressalta, porém, a importância de analisar esses aspectos em conjunto com as condições sociais, econômicas e de acesso aos serviços de saúde, evitando que as disparidades sejam atribuídas exclusivamente a fatores biológicos.

Desigualdade social também pode influenciar os resultados

Além das diferenças no acesso ao diagnóstico e ao tratamento, o levantamento aponta que fatores socioeconômicos e condições de vida podem contribuir para as desigualdades raciais relacionadas ao câncer de mama.

Dificuldades para acessar os serviços de saúde e situações de estresse associadas às condições de vida estão entre os aspectos considerados pela publicação.

O documento também recomenda fortalecer ações de prevenção e promoção da saúde, com atenção aos fatores de risco que podem ser modificados.

Entre as medidas destacadas estão a redução do consumo de bebidas alcoólicas, o controle da obesidade, a alimentação saudável, a prática de atividade física e o incentivo ao aleitamento materno.

Durante o evento, Roberto Gil também chamou atenção para o consumo de bebidas alcoólicas entre mulheres negras. O diretor-geral do Inca ressaltou que o álcool está relacionado ao risco de câncer de mama.

As recomendações integram uma abordagem de saúde pública que busca reduzir fatores de risco e ampliar as condições de prevenção, especialmente entre populações mais vulneráveis.

Câncer de mama é o mais incidente entre mulheres no Brasil

O câncer de mama é o tipo de câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras. Segundo os dados apresentados na publicação do Inca, cerca de quatro em cada cinco diagnósticos ocorrem a partir dos 50 anos.

O instituto estima ainda que aproximadamente 17% dos casos possam ser prevenidos por meio de hábitos saudáveis, incluindo a prática de atividade física, a manutenção do peso adequado, a redução do consumo de bebidas alcoólicas e o aleitamento materno.

Embora esses cuidados possam contribuir para diminuir o risco, eles não eliminam completamente a possibilidade de desenvolver a doença. Por isso, a prevenção deve ser acompanhada de atenção à saúde e acesso aos serviços de diagnóstico.

A publicação foi lançada na sede do Inca, na Praça Cruz Vermelha, no centro do Rio de Janeiro, como parte das atividades do Outubro Rosa. O evento também marcou o Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra.

Relato de paciente destaca importância do diagnóstico

Durante o lançamento, a artesã Solange Barbosa de Freitas, de 57 anos, compartilhou sua experiência com a doença.

Ela contou que descobriu o câncer de mama em 2019, durante uma campanha de exames de rotina realizada no Outubro Rosa. Na ocasião, não apresentava sintomas.

“ A doença foi considerada delicada. Fiz três cirurgias, tirei uma das mamas e fiz a reconstrução”, relatou.

Solange também afirmou que, pelo lado materno da família, foi a primeira pessoa a receber o diagnóstico de câncer de mama. Ela não conheceu a família do pai.

O relato ilustra a importância de manter o acompanhamento da saúde mesmo quando não há sintomas. A experiência individual, no entanto, não substitui as evidências epidemiológicas utilizadas para avaliar os fatores associados à doença.

Os dados apresentados pelo Inca reforçam que o enfrentamento do câncer de mama envolve tanto a prevenção e o diagnóstico oportuno quanto a redução das desigualdades no acesso ao tratamento. Para o instituto, ampliar a equidade na assistência é uma das medidas necessárias para diminuir as diferenças de mortalidade entre mulheres negras e brancas.

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