A capital amazonense, Manaus, celebrou na última sexta-feira (24) seus 356 anos de fundação, abrigando uma população que ultrapassa a marca de 2,3 milhões de habitantes, conforme as projeções mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Estes milhões de vidas que compõem o tecido social da metrópole da selva têm sido, há décadas, o principal objeto de análise e inspiração do renomado escritor Milton Hatoum. Recém-empossado na Academia Brasileira de Letras (ABL), Hatoum transcende os papéis de professor e tradutor para se firmar como o principal cronista da alma manauara, revisitando a complexa e visceral relação com sua terra natal em depoimento exclusivo concedido à Rede Amazônica e ao g1.
O legado literário de Hatoum está intrinsecamente ligado ao cenário da Amazônia. Quatro de suas obras mais aclamadas mundialmente — incluindo “Relato de um certo oriente” (1989), o sucesso “Dois Irmãos” (2000), “Cinzas do Norte” (2005) e “Órfãos do Eldorado” (2008) — utilizam Manaus não apenas como plano de fundo, mas como personagem essencial, explorando temas como a memória, a decadência urbana e as tensões familiares. Com um carisma notório e uma postura de observador atento, o autor discorreu sobre suas reminiscências de infância e o sentimento ambivalente que nutre pela cidade que moldou sua visão de mundo, manifestando grande preocupação com o panorama atual da metrópole.
Embora sua alma permaneça ligada ao Amazonas, Hatoum reside em São Paulo há anos, uma mudança motivada por questões acadêmicas e profissionais. Conforme explicou, a mudança inicial para a capital paulista visava a conclusão de um doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Contudo, o casamento e o desejo ardente de se dedicar integralmente à criação literária consolidaram sua permanência. “Eu queria mais tempo para meu trabalho de escritor. Infelizmente, tive que me desligar da Ufam e viver da minha pena, dos meus escritos”, relatou o autor, mencionando o período em que finalizou a emblemática obra “Dois Irmãos” por volta do ano 2000. Apesar da distância física imposta por suas escolhas de vida, o vínculo familiar — mantido através de irmãs, tias e primos — garante seu constante retorno à capital amazonense.
O olhar do mais recente “imortal” da ABL sobre Manaus, portanto, não se restringe à nostalgia afetiva. Ao mesmo tempo em que celebra a história e a cultura da cidade que lhe serve de eterno palco literário, o autor adota uma perspectiva crítica. Aquele que domina as narrativas da identidade amazônica manifesta sérias preocupações quanto à trajetória e à situação contemporânea da capital, sinalizando que a metrópole que inspirou tantas obras de beleza e conflito enfrenta desafios complexos que exigem a contínua atenção de seus milhões de habitantes e de toda a nação.
Fonte: g1 > Amazonas





