A decisão dos Estados Unidos de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas pode gerar impactos negativos para a economia do Brasil, segundo especialistas em relações internacionais, geopolítica e economia ouvidos pela Agência Brasil. A medida anunciada pelo governo norte-americano nesta semana envolve organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
Analistas avaliam que a classificação pode afetar áreas como investimentos estrangeiros, comércio exterior, turismo e relações financeiras internacionais. A decisão do governo dos Estados Unidos passa a valer oficialmente após publicação no Federal Register e amplia o nível de monitoramento sobre operações envolvendo o Brasil.
Segundo o cientista político e especialista em relações internacionais Francisco Carlos Teixeira da Silva, a mudança pode alterar a percepção internacional sobre segurança no país e impactar diretamente o ambiente econômico brasileiro.
Investimentos estrangeiros podem ser afetados
Francisco Teixeira afirmou que empresas internacionais já utilizam mecanismos de avaliação de risco relacionados à segurança e estabilidade política antes de investir em outros países.
De acordo com ele, a inclusão de facções brasileiras em listas de terrorismo internacional pode aumentar o grau de desconfiança de investidores estrangeiros e provocar redução de investimentos privados no país.
“Com a definição de país que abriga terrorismo internacional, esse grau de investimento vai sofrer um impacto muito grande. Bancos, indústrias vão ser impactadas, gerando desinvestimento, cessação de criação de empregos e perda em transferências de tecnologia”, afirmou o especialista à Agência Brasil.
A preocupação também envolve possíveis restrições adicionais em operações financeiras internacionais, especialmente em setores ligados ao sistema bancário e ao mercado de crédito.
Comércio exterior pode enfrentar maior fiscalização
Especialistas apontam ainda que exportações brasileiras podem passar a sofrer maior fiscalização em mercados internacionais, principalmente nos Estados Unidos e em países aliados.
Segundo Francisco Teixeira, produtos brasileiros poderão enfrentar procedimentos mais rígidos de controle e rastreamento por parte de órgãos internacionais.
“Tudo que o Brasil exporta vai ficar no nível de produtos passíveis de serem utilizados para exportação de drogas, para atentados terroristas ou contra transnacionais”, declarou.
A avaliação é que o aumento do escrutínio pode gerar atrasos logísticos, custos adicionais e dificuldades comerciais para empresas exportadoras brasileiras.
O Brasil possui forte presença internacional nos setores de agronegócio, mineração, siderurgia e alimentos, segmentos que dependem diretamente de operações globais de transporte e financiamento.
Turismo e eventos internacionais também preocupam
Outro setor citado pelos especialistas é o turismo. Para os analistas, a associação do Brasil ao terrorismo internacional pode prejudicar a imagem do país no exterior e afetar o fluxo de visitantes internacionais.
O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) destacou que o turismo de negócios pode ser um dos mais impactados, principalmente em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, que concentram grandes eventos corporativos e financeiros.
“A organização de eventos de negócios em São Paulo deve cair enormemente. É o que a gente chama de turismo de negócios, que é extremamente importante em São Paulo por mover a rede hoteleira e serviços”, afirmou.
O setor turístico brasileiro vinha registrando crescimento gradual após os impactos provocados pela pandemia de covid-19 e depende fortemente da imagem internacional do país para atração de visitantes estrangeiros.
Especialistas apontam riscos políticos e financeiros
O professor de economia internacional da UFRJ, Luiz Carlos Prado, afirmou que a decisão norte-americana também pode abrir espaço para disputas econômicas e políticas envolvendo empresas brasileiras.
Segundo ele, o novo enquadramento pode ser utilizado em investigações e sanções financeiras relacionadas a empresas que atuam no Brasil, inclusive no setor financeiro.
“Aumenta o risco de empresas que atuam no país que possam ser prejudicadas por algum critério que se coloca, reduz a margem de manobra de empresas brasileiras e aumenta a instabilidade política”, explicou.
O governo brasileiro também demonstrou preocupação com possíveis impactos sobre o sistema financeiro nacional e sobre ferramentas digitais como o Pix.
Em comunicado citado pela Agência Brasil, autoridades brasileiras apontaram que medidas internacionais podem afetar inovações financeiras nacionais e ampliar pressões econômicas externas.
Diferença entre terrorismo e crime organizado
Especialistas ouvidos pela reportagem destacaram que organizações criminosas voltadas ao narcotráfico e ao lucro financeiro possuem características diferentes de grupos classificados tradicionalmente como terroristas.
Segundo Luiz Carlos Prado, organizações terroristas geralmente possuem motivações políticas e ideológicas, enquanto facções criminosas brasileiras atuam principalmente com objetivos econômicos.
“O Estado Islâmico tinha apoiadores por razões ideológicas. Nenhum grupo criminoso no Brasil tem apoio por razões ideológicas na Europa ou nos EUA. O que eventualmente pode motivar são interesses econômicos”, afirmou.
Os analistas defendem que o combate ao crime organizado deve ocorrer por meio de cooperação internacional, inteligência financeira e combate à lavagem de dinheiro.
Debate envolve soberania e cooperação internacional
A decisão dos Estados Unidos também gerou debate sobre soberania nacional e cooperação internacional no enfrentamento ao crime organizado.
Especialistas avaliam que mudanças no enquadramento jurídico das facções podem alterar protocolos de compartilhamento de informações entre órgãos de segurança e inteligência dos países.
O cientista político Francisco Teixeira afirmou que ações mais efetivas de combate ao crime internacional deveriam priorizar mecanismos financeiros globais utilizados para lavagem de dinheiro.
“O governo Trump deveria suprimir paraísos fiscais usados para lavagem de dinheiro de organizações criminosas”, declarou.
Até o momento, o governo brasileiro não anunciou medidas concretas em resposta à classificação divulgada pelas autoridades norte-americanas.







