El Niño coloca Amazonas em alerta para seca e queimadas

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O Amazonas está em estado de emergência climática e ambiental, em caráter preventivo, por causa das projeções relacionadas ao El Niño 2026/2027. O decreto foi assinado pelo governador Roberto Maia Cidade Filho em 1º de junho e considera riscos como redução das chuvas, estiagem, seca, incêndios florestais, ondas de calor e menor disponibilidade de água.

A medida tem validade inicial de 180 dias e foi adotada antes de uma eventual intensificação dos efeitos climáticos. Dados recentes do Serviço Geológico do Brasil (SGB) mostram que a vazante já predomina nas principais bacias amazônicas, embora os níveis dos rios permaneçam dentro da faixa de normalidade na maior parte das estações monitoradas.

El Niño aumenta atenção sobre o Amazonas

O fenômeno climático ocorre quando há aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e pode alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.

No Brasil, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) explica que o El Niño normalmente aumenta o risco de seca na faixa norte das regiões Norte e Nordeste, enquanto pode favorecer volumes elevados de chuva no Sul do país.

Em junho, uma nota técnica conjunta do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), INMET, Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e Censipam apontou mais de 95% de probabilidade de ocorrência e persistência do El Niño ao longo do segundo semestre de 2026, com possibilidade de atuação até o início de 2027.

A evolução do fenômeno passou a ser acompanhada com atenção especialmente na Amazônia, onde alterações no regime de chuvas podem influenciar diretamente os rios, a navegação, o abastecimento, a agricultura e o risco de incêndios.

Amazonas decretou emergência preventiva

O Decreto nº 54.274, de 1º de junho de 2026, declarou o estado de emergência climática e ambiental em todo o Amazonas.

O documento afirma que a decisão foi baseada em projeções meteorológicas associadas ao El Niño 2026/2027 e em análises do Centro de Monitoramento e Alerta da Defesa Civil do Amazonas (CEMOA).

Segundo o decreto, o Relatório Técnico nº 05/2026 apontou elevada probabilidade de configuração do fenômeno ao longo de 2026, com tendência de redução gradual das precipitações em áreas do estado e elevação das temperaturas, especialmente na porção sul do território amazonense.

O governo estadual relacionou o cenário a possíveis agravamentos de riscos de estiagem, incêndios florestais, escassez hídrica e outros impactos socioambientais.

A declaração não significa que todo o Amazonas esteja atualmente em situação de desastre. O texto oficial estabelece uma medida preventiva, destinada a antecipar ações de monitoramento, preparação, mitigação e resposta.

Leia também: Entre secas e chuvas, El Niño provoca prejuízos de Norte a Sul do país

Quais órgãos estão envolvidos

O decreto determina que diferentes órgãos estaduais atuem de maneira integrada.

A Defesa Civil do Amazonas ficou responsável pela coordenação técnica das ações, incluindo o monitoramento hidrológico e meteorológico, a gestão de riscos e desastres e a produção e divulgação de informações estratégicas.

A Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) também integram as ações de monitoramento, prevenção, fiscalização e mitigação dos possíveis impactos ambientais.

A área de saúde também foi incluída no planejamento. A Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) e a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) deverão acompanhar possíveis efeitos relacionados a ondas de calor, escassez de água, qualidade do ar e doenças sensíveis às variações climáticas.

A Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar (Seduc-AM) deverá desenvolver ações de orientação e preparação da comunidade escolar diante de possíveis eventos climáticos extremos.

Rios começam período de vazante

O comportamento dos rios é um dos principais indicadores acompanhados no Amazonas.

O boletim mais recente do Serviço Geológico do Brasil (SGB), divulgado em 21 de julho, aponta que a vazante já predomina nas principais bacias amazônicas. Apesar disso, os níveis permanecem dentro da faixa de normalidade na maior parte das estações monitoradas.

O SGB informou que o período entre 21 de junho e 20 de julho correspondeu à transição entre as estações chuvosa e seca na Amazônia Ocidental.

Nesse intervalo, foram observadas chuvas abaixo da climatologia nas bacias dos rios Branco, Içá, Japurá, Juruá, Jutaí, Napo, Negro, Ucayali e no curso principal do rio Solimões.

Entre os maiores déficits registrados estavam as bacias do rio Branco, com anomalia de -1,6, Napo, com -1,4, Japurá e Ucayali, ambos com -1,3, e Içá, com -1,2.

Na bacia do rio Negro e no curso principal do Solimões, a anomalia registrada foi de -0,9.

Situação ainda é diferente da seca extrema

Apesar dos sinais de redução das chuvas em algumas áreas, os dados disponíveis não indicam, até o momento, que o Amazonas esteja repetindo automaticamente um cenário de seca extrema.

O SGB informou que 2026 começou com condições hidrológicas mais favoráveis na bacia do rio Amazonas, com o período de cheias dentro da normalidade.

A informação é relevante porque evita uma interpretação de que a emergência preventiva decretada pelo governo estadual represente, por si só, a confirmação de uma nova crise hídrica.

O monitoramento continuará sendo necessário porque a evolução dos níveis dos rios depende da distribuição das chuvas durante os próximos meses e da intensidade das condições climáticas associadas ao El Niño.

Risco de queimadas também preocupa

A redução das chuvas e o aumento das temperaturas podem deixar a vegetação mais seca e favorecer a propagação do fogo.

Por isso, a prevenção e o combate aos incêndios florestais estão entre as ações consideradas no decreto estadual.

A preocupação é especialmente relevante na porção sul do Amazonas, região que já enfrenta historicamente pressão relacionada ao desmatamento, queimadas e expansão de atividades agropecuárias.

A combinação entre períodos mais secos, temperaturas elevadas e vegetação com menor umidade pode aumentar a necessidade de fiscalização e resposta rápida das equipes responsáveis.

Impactos podem atingir comunidades e economia

O cenário climático possui consequências que vão além das questões ambientais.

Uma eventual redução acentuada do nível dos rios pode dificultar o transporte de pessoas e mercadorias em comunidades que dependem da navegação. O impacto também pode alcançar atividades econômicas que utilizam o transporte fluvial para o deslocamento de produtos.

A disponibilidade de água é outro ponto de atenção. Comunidades rurais e populações que vivem em áreas mais isoladas podem enfrentar dificuldades adicionais caso a estiagem seja prolongada.

Na agricultura e na pesca, alterações no regime de chuvas e dos rios também podem interferir nas atividades produtivas.

O decreto estadual determina, inclusive, que a Secretaria de Estado de Produção Rural (Sepror) acompanhe os possíveis efeitos da estiagem e da redução da disponibilidade hídrica nos setores agropecuário, pesqueiro e aquícola.

Saúde também entra no monitoramento

A emergência climática também envolve questões de saúde pública.

O governo estadual determinou o acompanhamento de possíveis impactos relacionados a ondas de calor, escassez hídrica, deterioração da qualidade do ar e doenças sensíveis às variações climáticas.

A qualidade do ar pode se tornar especialmente relevante em períodos de maior ocorrência de queimadas, quando a fumaça pode atingir áreas urbanas e comunidades próximas às regiões afetadas.

A atuação conjunta da SES-AM e da FVS-RCP deverá permitir o acompanhamento desses indicadores e a orientação dos municípios conforme a evolução do cenário.

E os R$ 1,3 bilhão?

O valor de R$ 1,3 bilhão aparece no contexto dos investimentos ambientais na Amazônia, mas é importante esclarecer que não se trata de um pacote criado exclusivamente para combater os efeitos do El Niño.

Segundo balanço apresentado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a média anual de aprovações do Fundo Amazônia passou de aproximadamente R$ 300 milhões entre 2009 e 2018 para R$ 1,3 bilhão no período posterior à retomada da governança do fundo, em 2023.

O Fundo Amazônia chegou a 2026 com R$ 5,3 bilhões em doações e 153 projetos aprovados.

De acordo com o BNDES, as iniciativas beneficiam mais de 650 organizações, 169 Terras Indígenas, 192 Unidades de Conservação e cerca de 260 mil pessoas.

Portanto, o valor pode ser relacionado ao esforço mais amplo de proteção e desenvolvimento sustentável da Amazônia, mas não deve ser apresentado como verba específica para o enfrentamento do El Niño no Amazonas.

Monitoramento continuará nos próximos meses

O cenário climático ainda está em evolução e os órgãos responsáveis deverão acompanhar os indicadores de chuva, temperatura, umidade, níveis dos rios e ocorrência de incêndios.

No Amazonas, a emergência preventiva tem validade inicial de 180 dias, podendo ser prorrogada enquanto persistirem as condições que motivaram a medida, conforme avaliações dos órgãos oficiais de monitoramento.

A principal preocupação é antecipar respostas para possíveis períodos de estiagem mais intensa, evitando que a população seja surpreendida por uma redução rápida dos níveis dos rios ou por uma escalada de incêndios.

Até o momento, os dados oficiais indicam atenção e preparação, mas não confirmam que o Amazonas esteja diante de uma repetição da seca histórica registrada em anos anteriores.

O acompanhamento dos rios, das chuvas e das condições meteorológicas deverá ser decisivo para determinar a intensidade dos impactos do El Niño no estado ao longo do segundo semestre de 2026.

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