Telessaúde amplia atendimento em comunidades indígenas do Alto Solimões

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Comunidades indígenas de Tabatinga e Benjamin Constant, no Alto Solimões, receberam em agosto de 2026 novas ações do Conexão Saúde, iniciativa da Rede Conexão Povos da Floresta voltada à ampliação do acesso à saúde por meio da conectividade. As atividades incluíram teleconsultas, exames, aferição de sinais vitais, capacitação de profissionais e reforço da estrutura utilizada nos atendimentos remotos.

A estratégia busca reduzir a necessidade de deslocamentos de moradores de comunidades isoladas para consultas e exames. Atualmente, 739 comunidades estão conectadas ao sistema, que contabiliza 8.024 utilizações de telessaúde, entre teleconsultas, telelaudos e aferições de sinais vitais. A plataforma reúne ainda 6.254 pessoas cadastradas e já possibilitou a emissão de 2.042 telelaudos.

A proposta é utilizar a infraestrutura de conectividade para aproximar profissionais de saúde e pacientes que vivem em territórios onde o atendimento presencial pode ocorrer com menor frequência.

Telessaúde reduz deslocamentos no Alto Solimões

Em territórios indígenas do interior do Amazonas, o acesso a consultas e exames pode exigir deslocamentos entre comunidades, polos de saúde e outros pontos de atendimento. O Conexão Saúde busca reduzir parte dessa movimentação ao permitir que determinados atendimentos sejam realizados remotamente.

Em Tabatinga, onde a iniciativa vem sendo desenvolvida em parceria com profissionais e estruturas locais de saúde indígena, já foram registradas 3.240 utilizações do programa em seis polos de saúde.

A atuação também envolve formação profissional. De acordo com os dados apresentados pela iniciativa, 164 agentes comunitários de saúde e outros profissionais já foram capacitados na região.

Entre os serviços realizados estão 465 aferições de sinais vitais, 379 teleconsultas com clínico geral e 188 teleconsultas com médicos especialistas.

A combinação entre atendimento remoto, equipamentos e conectividade permite que profissionais que estão nas comunidades realizem procedimentos e encaminhem informações para análise à distância.

Leia também: Programa de saúde do governo já atendeu mais de 24 mil indígenas

Exames passam a integrar atendimento remoto

Uma das frentes destacadas no projeto é o uso do eletrocardiograma (ECG) associado à conectividade. Os equipamentos podem ser transportados até as comunidades, onde os profissionais realizam os exames e enviam os dados para avaliação remota.

A possibilidade permite que o resultado seja analisado sem que o paciente precise deixar seu território exclusivamente para realizar o procedimento.

Para Adriana Campos, enfermeira da Casa de Apoio à Saúde Indígena (CASAI) de Tabatinga, a utilização da tecnologia representa uma mudança na rotina de atendimento.

“É uma realidade que antes a gente sonhava e hoje a gente tem”, afirma Adriana, ao destacar o uso do ECG e da telemedicina como ferramentas capazes de agilizar diagnósticos e reduzir deslocamentos.

O serviço também é apontado como uma forma de ampliar o acesso a profissionais especializados em localidades onde a presença física de médicos pode ser limitada.

Clínico-geral por telemedicina amplia frequência do atendimento

Para Sidneyri Olimpio, coordenador de Telessaúde do DSEI Alto Rio Solimões e da CASAI, sediada em Tabatinga, a experiência iniciada em abril apresenta boa aceitação entre usuários e equipes.

Segundo ele, uma das mudanças percebidas está na redução dos deslocamentos realizados pelos pacientes dentro do território.

“A gente viu que a população teve uma boa aceitação por parte dos nossos usuários e da equipe. Uma das melhorias é a diminuição da questão do combustível. O paciente agora não precisa mais se deslocar simplesmente por ter uma gripe, sair da sua aldeia e vir para o polo base. Ele consegue já ser atendido na UBSI de cada polo base”, destaca.

O coordenador afirma ainda que a iniciativa ampliou a frequência de acesso ao atendimento médico em locais onde a disponibilidade presencial era menor.

“A população está sendo assistida como antes não estava. O médico que temos no polo vinha uma vez por mês e, devido à grande população, não conseguiria estar todos os dias na UBSI. Hoje, através do projeto, que está oferecendo clínico 24 horas, a tendência é melhorar a questão da saúde e diminuir a mobilidade dentro do nosso território”, afirma Sidneyri.

A integração dos exames também é considerada relevante para o funcionamento da estratégia. Segundo o coordenador, anteriormente havia a possibilidade de teleconsulta, mas faltava incorporar o apoio diagnóstico à estrutura.

“A gente tinha a teleconsulta, mas faltava a questão do exame. E hoje esse projeto está proporcionando para a gente uma realidade que antes a gente sonhava e hoje a gente tem: médico 24 horas na UBSI”, completa.

Moradores relatam maior rapidez nas consultas

A mudança na forma de acesso ao atendimento também é relatada pelos moradores das comunidades participantes.

Janete Felipe Fermino, moradora da comunidade Bananal, na região de Tabatinga, conta que antes da implantação da telessaúde o acesso às consultas médicas era mais demorado e envolvia espera e filas.

“A nossa realidade antes era outra, porque era um pouco difícil para ter as consultas. Aí tinha que esperar. Era aquela demora danada, tinha que ficar na fila. E hoje em dia já facilitou mais por conta das consultas online, com os melhores médicos. Facilitou bastante, não só para mim, como para a comunidade inteira, porque foi uma coisa boa para todos”, relata.

Janete também utilizou o serviço para uma consulta e avaliou que o atendimento remoto reduziu o tempo necessário para conseguir assistência.

“Hoje eu tive minha consulta e, graças a Deus, não foi difícil. Foi uma coisa fácil, rápida. Essa rapidez não existia. E agora é uma coisa mais fácil e mais rápida para se resolver na consulta”, afirma.

Os relatos de profissionais e moradores apontam para a utilização da conectividade como suporte à estrutura de saúde já existente nas comunidades, sem substituir a atuação das equipes locais.

Conexão Saúde reúne atendimento e capacitação

O Conexão Saúde integra as ações do Grupo de Trabalho de Saúde da Rede Conexão Povos da Floresta e conta com a parceria da Portal Telemedicina, responsável pelo desenvolvimento do aplicativo utilizado na estratégia de atendimento remoto.

Além das consultas e dos exames, o programa inclui formação de agentes e profissionais locais, ações de educação em saúde e desenvolvimento de linhas de cuidado adaptadas às características dos territórios.

A proposta é estruturar um sistema conectado de telessaúde que permita aos moradores ter acesso a atendimentos básicos durante a semana, articulando os recursos tecnológicos às equipes que já trabalham na atenção à saúde indígena.

Iniciativa ganhou projeção internacional

As ações desenvolvidas em Tabatinga também foram apresentadas em âmbito internacional. Em março de 2026, uma iniciativa de telemedicina implementada pela Internet Society (ISOC) e pela Rede Conexão Povos da Floresta foi apresentada no contexto de um memorando de entendimento firmado entre o Brasil e a Comissão Interamericana de Telecomunicações (Citel).

A experiência busca demonstrar como a conectividade pode ser utilizada não apenas para comunicação, mas também como suporte ao acesso a serviços essenciais.

Na área da saúde, a estratégia está relacionada à possibilidade de oferecer atendimento, acompanhamento e apoio diagnóstico a comunidades localizadas em regiões de difícil acesso, reduzindo a dependência de deslocamentos de pacientes e profissionais para determinados serviços.

Rede atua para ampliar conectividade na Amazônia

A Rede Conexão Povos da Floresta tem como objetivo ampliar a inclusão digital e o acesso a políticas públicas em comunidades que enfrentam isolamento digital.

Segundo as informações apresentadas pela organização, a meta é alcançar 1 milhão de pessoas em 9 mil comunidades até o final da década, começando pela Amazônia e avançando posteriormente para outras regiões.

A iniciativa é liderada pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).

A rede reúne mais de 50 organizações parceiras e trabalha com três pilares: infraestrutura, controle comunitário e inclusão digital com empoderamento.

Para dar suporte às ações, foi criado o Instituto Conexão Povos da Floresta, responsável pela gestão dos kits de conectividade e energia e pela coordenação dos grupos de trabalho temáticos.

As atividades realizadas em agosto em Tabatinga e Benjamin Constant fazem parte dessa estratégia de integração entre conectividade, capacitação, equipamentos e atendimento remoto.

No Alto Solimões, a telessaúde passa a ser utilizada como ferramenta complementar à estrutura de saúde indígena, permitindo que consultas, exames e acompanhamento médico ocorram mais próximos das comunidades onde vivem os pacientes.

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