Profissionais de saúde mental alertam para os riscos associados ao uso problemático de bets e defendem que a relação entre apostas online, sofrimento psíquico e prevenção ao suicídio seja tratada de forma aberta nos consultórios, grupos terapêuticos e dentro das famílias. O alerta ocorre nesta quinta-feira (10), Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.
Especialistas ouvidos pela Agência Brasil destacam que a dependência em apostas pode estar acompanhada de ansiedade, depressão, isolamento, problemas financeiros, conflitos familiares e mudanças de comportamento. Eles ressaltam, porém, que apostar não significa necessariamente desenvolver depressão ou apresentar comportamento suicida.
O principal ponto de atenção está na perda de controle sobre as apostas e nas consequências provocadas quando o jogo passa a ocupar espaço central na rotina.
Apostas online podem ampliar exposição ao jogo
A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que pacientes que procuram tratamento por ludopatia frequentemente chegam aos serviços de saúde apresentando humor deprimido e ansiedade relacionada aos prejuízos provocados pelas apostas.
Segundo a especialista, alguns pacientes também relatam pensamentos relacionados à morte e ideação suicida, especialmente diante de consequências financeiras graves.
O Ministério da Saúde também reconhece o transtorno do jogo como uma condição relacionada ao comportamento aditivo. Entre os sinais que merecem atenção estão gastar ou apostar mais do que o planejado, preocupação frequente com jogos, alterações no sono, humor, rotina e relações pessoais.
A facilidade de acesso é outro fator apontado pelos profissionais. As bets podem ser utilizadas pelo celular e permanecem disponíveis praticamente durante todo o dia, o que aumenta a exposição às apostas e pode dificultar a percepção de que o comportamento deixou de ser eventual.
Além disso, a presença das apostas em publicidade, redes sociais e eventos esportivos pode contribuir para a normalização desse tipo de atividade.
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Sistema de recompensa pode reforçar comportamento
O neurocirurgião Orlando Maia, que atua no Rio de Janeiro, explica que o mecanismo de dependência está relacionado ao sistema de recompensa do cérebro.
Segundo o médico, a expectativa de ganhar pode estimular a liberação de dopamina e reforçar o comportamento de apostar. Com a repetição, o sistema de recompensa pode se sobrepor aos mecanismos envolvidos no controle das decisões.
Esse processo, de acordo com os especialistas, pode contribuir para que a pessoa continue apostando mesmo depois de registrar perdas financeiras ou perceber consequências negativas na vida pessoal.
O problema pode se intensificar quando o apostador aumenta os valores das apostas na tentativa de recuperar dinheiro perdido.
Dívidas e isolamento podem agravar sofrimento
A psiquiatra Giovanna Quinet, que atua no Rio de Janeiro, ressalta que o risco não está simplesmente no ato de apostar, mas na transformação do jogo em uma atividade central da vida, acompanhada de perda de controle e consequências negativas.
Um dos comportamentos observados pelos especialistas é a tentativa de recuperar perdas por meio de novas apostas. Nesse processo, a pessoa pode esconder da família quanto está gastando e acumular dívidas.
As consequências podem incluir conflitos familiares, prejuízos no trabalho, insônia, ansiedade, culpa, vergonha e isolamento social.
O Ministério da Saúde também aponta que o uso problemático de apostas pode afetar a saúde mental, as relações familiares, a situação financeira e a rotina. A pasta recomenda atenção a mudanças de humor, sono, comportamento e dificuldade para interromper as apostas.
Familiares podem ajudar na identificação
Outro alerta dos profissionais é que a própria pessoa nem sempre reconhece que desenvolveu um problema relacionado às apostas.
O neurocirurgião Orlando Maia afirma que familiares e amigos podem ter papel importante na percepção dos sinais e na busca por ajuda.
A psicóloga Claudia Feres, que trabalha em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) no Distrito Federal, defende que pessoas em sofrimento e seus familiares procurem atendimento profissional.
Para a especialista, situações envolvendo pensamentos ou tentativas de suicídio devem ser compreendidas como sinais de sofrimento que exigem acolhimento e acompanhamento.
A recomendação do Ministério da Saúde é que pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas procurem uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Caps. O atendimento pode envolver avaliação inicial, acompanhamento multiprofissional e, quando necessário, tratamento especializado.
Falar sobre ideação suicida não aumenta o risco
A psiquiatra Katia Branco defende que pensamentos relacionados ao suicídio sejam abordados de maneira direta e responsável durante o tratamento.
Segundo os profissionais, perguntar sobre esse tipo de pensamento não significa induzir uma pessoa ao suicídio. Ao contrário, a abordagem pode abrir espaço para que o paciente fale sobre uma situação que vinha enfrentando em silêncio.
Os especialistas recomendam atenção a sinais como desesperança, sensação de não encontrar saída, afastamento de familiares e amigos, aumento do consumo de álcool, mudanças bruscas de comportamento e falas relacionadas à morte ou ao desejo de não continuar vivendo.
A presença desses sinais não significa, isoladamente, que uma pessoa tentará tirar a própria vida. Eles indicam, entretanto, a necessidade de atenção e avaliação profissional.
SUS oferece atendimento para problemas com apostas
O Ministério da Saúde lançou, em julho de 2026, uma campanha nacional de prevenção aos danos das apostas online. A iniciativa informa sobre sinais de uso problemático e divulga serviços de acolhimento e tratamento disponíveis no SUS.
O atendimento pode começar em uma UBS. Quando houver necessidade de acompanhamento especializado em saúde mental, a pessoa pode ser encaminhada para um Caps.
Também existe teleatendimento em saúde mental para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e seus familiares. O acesso pode ser iniciado pelo Meu SUS Digital, onde está disponível a ferramenta “Problemas com jogos de apostas?”.
O Ministério da Saúde também disponibiliza um autoteste para ajudar a identificar sinais de problemas relacionados ao jogo. A ferramenta orienta que pessoas com pensamentos de morte ou ideação suicida procurem atendimento de urgência, liguem para o Samu pelo número 192 ou busquem uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA).
Autoexclusão é alternativa para restringir apostas
Para quem percebe que as apostas estão causando prejuízos, existe ainda a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, desenvolvida pelo Ministério da Fazenda.
A ferramenta permite solicitar voluntariamente o bloqueio do acesso às plataformas de apostas autorizadas. O sistema também impede a abertura de novas contas vinculadas ao CPF cadastrado e interrompe o envio de publicidade direcionada pelas empresas participantes.
A autoexclusão não substitui o atendimento de saúde, mas pode ser utilizada como uma medida de proteção para pessoas que identificam perda de controle sobre as apostas.
Prevenção exige atuação conjunta
O debate sobre os riscos das bets envolve não apenas o comportamento individual, mas também a atuação de familiares, profissionais de saúde, poder público, reguladores e empresas do setor.
O Ministério da Saúde orienta que a prevenção e o tratamento dos problemas relacionados às apostas envolvam informação, suporte emocional e acesso à Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A orientação também inclui evitar o estigma contra pessoas que enfrentam dificuldades com jogos de apostas.
A abordagem dos especialistas é que a busca por ajuda não deve esperar o agravamento das dívidas, dos conflitos familiares ou do sofrimento emocional.
Onde buscar ajuda
Em situações de sofrimento emocional, a pessoa pode procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Atenção Psicossocial (Caps).
Em situações de emergência ou quando houver risco imediato, a orientação oficial é procurar uma UPA ou pronto-socorro, acionar o Samu pelo telefone 192 ou buscar atendimento hospitalar.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. O atendimento é sigiloso.





