A família Bolsonaro enfrenta uma sequência de reveses eleitorais e judiciais no fim de 2026. Em menos de duas semanas, Flávio Bolsonaro perdeu a disputa pela Presidência da República, Jair Bolsonaro passou a enfrentar um processo no Superior Tribunal Militar (STM) que pode resultar na perda de sua patente e Eduardo Bolsonaro permaneceu nos Estados Unidos após ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
O cenário ganhou um novo componente com as eleições legislativas americanas de 3 de novembro. Os democratas conquistaram espaço no Congresso dos Estados Unidos e devem assumir o controle das duas Casas legislativas, o que amplia a capacidade de fiscalização das decisões do governo do presidente Donald Trump, aliado político da família brasileira.
As mudanças ocorrem em um momento de dificuldades para o grupo político no Brasil e de questionamentos sobre a situação migratória dos dois filhos de Jair Bolsonaro nos Estados Unidos. Apesar disso, o resultado das eleições americanas não representa, por si só, uma mudança na posição pessoal de Trump em relação à família.
Flávio Bolsonaro perde disputa presidencial para Lula
O principal revés eleitoral da família ocorreu em 25 de outubro, quando Flávio Bolsonaro (PL) perdeu o segundo turno da eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
De acordo com os resultados divulgados pelo Congresso Nacional, Lula recebeu 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio alcançou 48,21%. A diferença entre os candidatos ultrapassou 4,4 milhões de votos.
Após a divulgação do resultado, Flávio questionou a legitimidade da votação e afirmou que buscaria a anulação da eleição. O senador apontou como motivo a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou a extensão do horário de votação até as 19h em determinadas seções eleitorais.
A medida foi tomada após relatos de dificuldades no transporte de eleitores e pedidos apresentados pelas campanhas. O questionamento de Flávio, entretanto, não altera o resultado oficial proclamado pela Justiça Eleitoral.
A derrota também encerrou a possibilidade de a família Bolsonaro voltar diretamente ao comando do Executivo federal a partir de janeiro de 2027.
Depois da eleição, Flávio viajou para os Estados Unidos com a família. O governo americano concedeu ao senador uma autorização temporária de permanência por até um ano, na modalidade conhecida como parole. O mecanismo não equivale a asilo político nem representa residência permanente no país.
Leia também: Carta de Flávio Bolsonaro com brasão da república pode configurar crime
Jair Bolsonaro pode perder posto e patente militar
Além da condenação criminal, Jair Bolsonaro enfrenta um processo no Superior Tribunal Militar que pode resultar na perda de seu posto e de sua patente de capitão reformado do Exército.
O Ministério Público Militar apresentou uma representação para que o tribunal analise se o ex-presidente é indigno ou incompatível com o oficialato, após a condenação pelo STF a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado.
O julgamento no STM não tem a finalidade de reexaminar a condenação criminal. A análise trata especificamente da permanência de Bolsonaro no oficialato, conforme as regras aplicáveis aos militares condenados a penas superiores a dois anos de prisão.
O procedimento também envolve os generais Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Walter Braga Netto, além do almirante Almir Garnier.
Caso o STM declare Bolsonaro indigno ou incompatível com o oficialato, ele poderá perder o posto e a patente. A decisão, porém, não modifica automaticamente a condenação criminal determinada pelo Supremo.
O ex-presidente cumpre a pena em prisão domiciliar humanitária, conforme decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que manteve a medida em julho de 2026.
Eduardo Bolsonaro tem condenação e mandado de prisão
Eduardo Bolsonaro também enfrenta consequências judiciais por sua atuação nos Estados Unidos durante o processo relacionado à tentativa de golpe de Estado.
Em junho de 2026, a Primeira Turma do STF condenou o ex-deputado federal a quatro anos e dois meses de prisão pelo crime de coação no curso do processo.
Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), Eduardo atuou para pressionar autoridades brasileiras por meio de articulações com integrantes do governo americano, em uma tentativa de interferir no andamento do julgamento de Jair Bolsonaro.
A condenação foi relacionada à atuação atribuída ao ex-deputado e ao empresário Paulo Figueiredo na busca por sanções contra autoridades brasileiras.
Em outubro, o ministro Alexandre de Moraes determinou a expedição de um mandado de prisão contra Eduardo, além do cancelamento de seus passaportes. A ordem foi emitida após o início da execução da pena.
Eduardo permanece nos Estados Unidos, onde vive desde 2025. A existência de um mandado de prisão brasileiro não resulta em detenção automática em território americano. Eventual extradição depende de procedimentos de cooperação internacional e da análise das autoridades dos Estados Unidos.
O ex-deputado também perdeu o mandato parlamentar e o cargo de escrivão da Polícia Federal, conforme as decisões relacionadas ao caso.
Eleições americanas mudam composição do Congresso
As eleições legislativas realizadas em 3 de novembro nos Estados Unidos acrescentaram uma nova variável ao cenário político da família Bolsonaro.
As chamadas midterms, eleições de meio de mandato, renovam parte do Congresso americano e permitem que os eleitores avaliem a atuação do partido que ocupa a Casa Branca. Neste ano, os democratas conquistaram a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, conforme projeções divulgadas pela imprensa americana.
Com a mudança, o governo de Donald Trump deverá enfrentar uma oposição parlamentar com maior capacidade de convocar autoridades, abrir investigações e fiscalizar decisões do Executivo.
A alteração na composição do Congresso pode ter repercussões sobre temas relacionados à política externa americana e às relações com o Brasil. Entretanto, os parlamentares não têm poder direto para determinar a deportação de Flávio ou Eduardo Bolsonaro.
O resultado também não significa que Trump tenha rompido o apoio político à família brasileira. O presidente americano já havia manifestado apoio a Jair Bolsonaro e autorizado a entrada de Flávio nos Estados Unidos após a eleição brasileira.
Situação migratória de Flávio e Eduardo nos Estados Unidos
A permanência dos dois irmãos em território americano depende de situações migratórias distintas.
Flávio Bolsonaro recebeu autorização temporária para permanecer nos Estados Unidos por até um ano. A modalidade parole permite a entrada e a permanência excepcional de estrangeiros por período determinado, mas não equivale a visto permanente ou asilo político.
Eduardo, por sua vez, já vivia nos Estados Unidos antes da condenação pelo STF. A existência de uma sentença e de um mandado de prisão no Brasil não determina automaticamente sua situação migratória no país.
Uma eventual extradição depende de solicitação formal, análise jurídica e decisão das autoridades americanas. Da mesma forma, uma investigação conduzida pelo Congresso dos Estados Unidos sobre decisões do governo Trump não representa, isoladamente, uma ordem para que os brasileiros deixem o país.
Até o momento, não há uma decisão pública que determine a saída imediata dos dois irmãos dos Estados Unidos.
Derrota eleitoral altera cenário político da família
A vitória de Lula também modifica o cenário político para Jair Bolsonaro e seus aliados. Com Flávio fora da disputa presidencial, a família não terá um integrante no comando do Executivo federal a partir de 2027.
Uma eventual mudança na situação criminal do ex-presidente, como a concessão de indulto presidencial, também não poderá ser determinada por um integrante da família que assuma a Presidência, já que nenhum deles venceu a eleição.
Isso não impede a defesa de Jair Bolsonaro de recorrer às instâncias judiciais ou que parlamentares aliados apresentem propostas legislativas relacionadas à situação dos condenados pelos atos golpistas.
Apesar da derrota presidencial, o grupo político mantém representação no Congresso Nacional e influência entre setores do eleitorado. O resultado de Flávio, que recebeu 48,21% dos votos válidos, demonstra que a família continua com presença expressiva na disputa política nacional.
A combinação entre a derrota eleitoral, os processos judiciais e a mudança na composição do Congresso americano coloca a família Bolsonaro diante de desafios simultâneos no Brasil e nos Estados Unidos. Os próximos desdobramentos dependerão das decisões do STF, do STM, das autoridades migratórias americanas e da atuação dos novos parlamentares dos dois países.








