O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) sua renúncia ao cargo em meio à crise política e financeira provocada pela intervenção do Banco Central do Paraguai no Ueno Bank. A decisão foi divulgada enquanto a Câmara dos Deputados discutia a abertura de um processo de impeachment contra o mandatário.
Peña justificou a saída pela necessidade de preservar a estabilidade do país e as instituições democráticas. Com a renúncia, o vice-presidente Pedro Alliana deverá assumir a Presidência e concluir o mandato, previsto para terminar em agosto de 2028, após a formalização dos procedimentos pelo Congresso.
Mesmo depois do anúncio, a Câmara dos Deputados aprovou o impeachment de Peña por 78 votos a zero. O processo segue para o Senado, que deverá decidir sobre as acusações. Segundo a Associated Press, a condenação exige o apoio de dois terços dos senadores.
Renúncia ocorreu durante pressão política
Em pronunciamento divulgado nas redes sociais, Peña afirmou que tomou a decisão em um dos momentos mais difíceis de sua vida e colocou a estabilidade do Paraguai acima de sua permanência no cargo.
“Também quero pedir desculpas ao povo, caso em algum momento eu tenha falhado. Nunca foi minha intenção trair a confiança que depositaram em mim”, declarou o presidente.
A renúncia ocorreu depois que integrantes do próprio Partido Colorado, legenda de Peña, passaram a apoiar sua saída. A crise também provocou manifestações em Assunção, capital paraguaia, com cobranças por respostas das autoridades e pela devolução dos valores depositados no banco.
O Congresso deverá formalizar a aceitação da renúncia e a sucessão presidencial. Conforme a Constituição paraguaia, em caso de vacância definitiva da Presidência, o vice-presidente eleito assume o cargo até o encerramento do período constitucional.
Intervenção no Ueno Bank desencadeou crise
A crise começou após o Banco Central do Paraguai determinar, em 3 de novembro, o início do procedimento de resolução do Ueno Bank. A medida foi adotada depois que a autoridade monetária identificou insuficiência no índice de solvência da instituição, que ficou abaixo de 50% do mínimo exigido pela regulamentação.
O banco digital atendia aproximadamente 2,9 milhões de clientes, número que representa mais de 60% da população adulta do Paraguai, segundo informações divulgadas pela imprensa internacional. Com a intervenção, clientes enfrentaram restrições de acesso às contas e aos recursos depositados na instituição.
A instituição também concentrava recursos públicos. De acordo com a Associated Press, o banco mantinha cerca de US$ 800 milhões em depósitos de órgãos públicos, incluindo valores ligados ao sistema estatal de previdência e saúde.
A crise atingiu diretamente aposentados, trabalhadores e consumidores que utilizavam os serviços da instituição. Também houve manifestações de clientes e funcionários que cobravam acesso ao dinheiro, pagamento de salários e esclarecimentos sobre o futuro das operações bancárias.
Vínculos de Peña com grupo ligado ao banco
A situação ganhou dimensão política devido aos vínculos anteriores de Santiago Peña com o Grupo Vázquez, conglomerado que controla o Ueno Bank. O presidente manteve participação acionária no grupo até 2025, conforme informações divulgadas pela imprensa.
Outro ponto questionado foi a nomeação de Carlos Carvallo para a presidência do Banco Central. Antes de assumir o comando da autoridade monetária, Carvallo havia dirigido a instituição financeira que antecedeu o Ueno Bank.
Após o início do procedimento de resolução do banco, Carvallo também apresentou renúncia ao cargo. A oposição passou a questionar possíveis conflitos de interesse e a atuação do governo na fiscalização da instituição. Essas acusações fazem parte do contexto político do processo contra Peña, mas não representam, por si só, comprovação de responsabilidade criminal do ex-presidente.
Investigação e pagamento aos depositantes
A crise também provocou a atuação do Ministério Público paraguaio, que solicitou medidas contra dirigentes e pessoas ligadas à instituição. A Associated Press informou que oito executivos do banco foram detidos e que outras 27 pessoas foram acusadas de possíveis irregularidades. As investigações devem apurar as operações financeiras e as responsabilidades individuais.
O Banco Central informou, em comunicado publicado em 5 de novembro, o início do processo de pagamento da garantia aos depositantes do Ueno Bank. A instituição também anunciou a disponibilização de um mecanismo para que os clientes consultem em qual banco poderão receber os valores previstos pelo Fundo de Garantia de Depósitos.
A saída de Peña abre uma nova etapa na crise política paraguaia. Além da transição na Presidência, o Congresso ainda precisa definir os efeitos do processo de impeachment aprovado pela Câmara e acompanhar as medidas destinadas a proteger os depositantes e esclarecer as circunstâncias que levaram à intervenção no banco.






