Inteligência artificial pode comprometer formação de futuros líderes ao substituir jovens profissionais, alerta estudo

Pesquisa internacional da CEMS, rede da qual a Fundação Getulio Vargas faz parte, aponta que a redução de vagas para recém-formados pode enfraquecer a cultura das empresas e prejudicar o desenvolvimento de novas lideranças.

A inteligência artificial está transformando o mercado de trabalho, automatizando tarefas e mudando a maneira como as empresas contratam profissionais. Mas a busca por produtividade e redução de custos pode trazer consequências que vão muito além da substituição de atividades humanas por sistemas tecnológicos.

Um estudo internacional da CEMS (Global Alliance in Management Education), rede global de escolas de negócios da qual a Fundação Getulio Vargas (FGV) participa por meio da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP), alerta que diminuir a contratação de recém-formados em favor da inteligência artificial pode comprometer a formação dos líderes que estarão à frente das organizações nos próximos anos.

O relatório, intitulado The Missing Rung? AI and the Future of Entry-Level Work — em tradução livre, “O degrau que faltava? A inteligência artificial e o futuro dos cargos de entrada” — foi desenvolvido a partir de pesquisas e entrevistas com estudantes de mais de 20 países, além de contribuições de representantes de empresas e instituições acadêmicas.

A principal preocupação dos pesquisadores não é apenas a possível redução de vagas, mas a perda de oportunidades de aprendizado que tradicionalmente ajudam jovens profissionais a desenvolver experiência, responsabilidade e capacidade de tomar decisões.

Primeiro emprego é fundamental para formar lideranças

Para muitos jovens, a primeira oportunidade profissional representa muito mais do que o início de uma carreira. É nesse período que conhecimentos adquiridos na universidade começam a ser colocados em prática e que habilidades importantes são desenvolvidas no contato diário com colegas, gestores e clientes.

Segundo o estudo, os cargos de entrada funcionam como uma etapa essencial na formação de profissionais que poderão assumir responsabilidades maiores no futuro.

São nessas posições que os recém-formados aprendem a lidar com problemas reais, administrar conflitos, trabalhar em equipe e compreender os valores de uma organização.

Quando as empresas deixam de contratar jovens para substituir suas atividades por sistemas automatizados, podem reduzir também as oportunidades de desenvolver internamente seus futuros gestores.

A consequência, segundo o alerta da CEMS, pode aparecer ao longo dos anos, com a diminuição do número de profissionais preparados para assumir posições de liderança.

O desafio, portanto, não está apenas em identificar quais tarefas podem ser realizadas pela inteligência artificial, mas em preservar os espaços onde as pessoas aprendem a exercer julgamento, autonomia e responsabilidade.

Inteligência artificial está transformando os cargos iniciais

Apesar das preocupações, o relatório não aponta para o desaparecimento generalizado das vagas destinadas a profissionais em início de carreira.

A avaliação é que muitas dessas funções estão passando por uma transformação significativa.

Atividades como elaboração de textos rotineiros, organização de informações, extração de dados e análises preliminares já podem ser realizadas, em diferentes graus, com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial.

Isso permite que os profissionais dediquem mais tempo a tarefas que exigem interpretação, criatividade, comunicação e tomada de decisões.

Por outro lado, também exige mudanças na forma como as empresas estruturam suas equipes e orientam os novos contratados.

O estudo indica que a automação deve ser acompanhada de oportunidades de aprendizado. Caso contrário, os jovens poderão ingressar no mercado sem desenvolver competências que antes eram adquiridas por meio das atividades iniciais.

Jovens que dominam IA podem conquistar novas oportunidades

A mesma tecnologia que provoca incertezas sobre o futuro do emprego também pode abrir caminhos para quem está começando a carreira.

De acordo com a pesquisa, os recém-formados possuem uma oportunidade particular neste momento de transformação digital: a experiência com as ferramentas atuais de inteligência artificial ainda está sendo construída por profissionais de diferentes gerações.

Isso significa que jovens com domínio dessas tecnologias podem contribuir diretamente para a modernização dos processos de trabalho.

O diferencial, no entanto, não estará apenas em saber utilizar plataformas de IA para produzir textos, organizar informações ou executar comandos.

As empresas tendem a valorizar profissionais capazes de identificar problemas, desenvolver soluções e integrar ferramentas tecnológicas a projetos completos.

Nesse cenário, conhecimentos técnicos precisam caminhar ao lado de habilidades humanas, como pensamento crítico, capacidade de comunicação, criatividade e colaboração.

O estudo reforça que o uso eficiente da inteligência artificial depende da capacidade de avaliar seus resultados e compreender quando a intervenção humana é necessária.

Pensamento crítico e ética ganham importância

Outro ponto destacado pela pesquisa é o risco de uma dependência excessiva de respostas produzidas por algoritmos.

Embora ferramentas de inteligência artificial sejam capazes de acelerar atividades, seus resultados podem apresentar limitações, erros e interpretações inadequadas.

Por isso, o discernimento ético e o pensamento independente tornam-se competências fundamentais.

Os pesquisadores defendem que jovens profissionais precisam desenvolver uma identidade própria, construída também por meio de experiências fora do ambiente digital.

A convivência com diferentes pessoas, o contato com outras culturas e a participação em situações reais ajudam a formar profissionais capazes de avaliar informações e tomar decisões com responsabilidade.

Em um ambiente corporativo cada vez mais automatizado, a capacidade de questionar respostas e apresentar perspectivas próprias pode se tornar um diferencial importante.

A inteligência artificial pode auxiliar na execução de tarefas, mas não substitui integralmente a experiência humana necessária para compreender contextos sociais, relações profissionais e consequências de determinadas decisões.

Empresas podem perder conhecimento e cultura organizacional

A redução das contratações de recém-formados também representa um possível risco para a continuidade da cultura corporativa.

Ao longo da carreira, profissionais aprendem não apenas procedimentos técnicos, mas também princípios, práticas e formas de relacionamento que caracterizam as organizações onde trabalham.

Esse processo de transmissão de conhecimento ocorre frequentemente por meio da convivência entre funcionários experientes e profissionais mais jovens.

Para Nicole de Fontaines, diretora executiva da CEMS, os cargos iniciais desempenham um papel importante na construção dessas experiências e no desenvolvimento de lideranças com visão internacional.

A dirigente destaca que líderes preparados para atuar em diferentes culturas não chegam prontos às empresas. Sua formação depende de experiências concretas, interação com pessoas e aprendizado ao longo da trajetória profissional.

Representantes de empresas que contribuíram para o relatório também manifestaram preocupação com a possibilidade de enfraquecimento da formação interna de talentos.

A avaliação é que deixar de contratar profissionais em início de carreira pode gerar dificuldades futuras para renovar equipes e preservar conhecimentos acumulados ao longo dos anos.

Universidades precisam adaptar o ensino à nova realidade

O relatório também chama atenção para a responsabilidade das instituições de ensino superior diante das transformações provocadas pela inteligência artificial.

Segundo os pesquisadores, impedir o uso dessas ferramentas nas universidades não é a melhor resposta aos desafios atuais.

A recomendação é integrar a tecnologia ao processo educacional, ao mesmo tempo em que se preserva a capacidade dos estudantes de desenvolver raciocínio próprio.

Isso exige mudanças na elaboração de trabalhos acadêmicos, atividades práticas e métodos de avaliação.

Em vez de avaliar apenas o resultado final de uma tarefa, as instituições podem dar maior atenção ao processo de construção das ideias, à capacidade de argumentação e à justificativa das decisões tomadas pelos estudantes.

A proposta é preparar profissionais que saibam trabalhar com inteligência artificial sem depender exclusivamente das respostas produzidas por ela.

Para as escolas de negócios, essa adaptação é especialmente relevante, já que os futuros gestores precisarão compreender tanto o potencial econômico das novas tecnologias quanto suas implicações humanas e éticas.

O que muda para o mercado de trabalho brasileiro?

Embora tenha alcance internacional, o debate apresentado pela CEMS também é relevante para o Brasil, onde estudantes universitários e recém-formados enfrentam o desafio de conquistar experiência profissional em um mercado cada vez mais digitalizado.

A adoção de ferramentas de inteligência artificial pode modificar processos de seleção, programas de estágio, vagas de trainee e funções administrativas tradicionalmente ocupadas por profissionais em início de carreira.

Nesse contexto, empresas e instituições de ensino precisarão avaliar como conciliar ganhos de produtividade com a formação de novos talentos.

Programas de capacitação, acompanhamento profissional e participação em projetos reais podem ajudar a manter oportunidades de desenvolvimento, mesmo quando parte das tarefas é automatizada.

Essa é uma aplicação possível das conclusões do estudo ao contexto brasileiro, e não uma medição específica de seus efeitos no país.

Tecnologia deve apoiar o desenvolvimento humano, aponta pesquisa

O estudo da CEMS apresenta uma reflexão sobre o futuro das organizações: a inteligência artificial pode transformar profundamente a maneira como o trabalho é realizado, mas sua adoção não deve eliminar as oportunidades necessárias à formação de profissionais.

Para os pesquisadores, o desafio das empresas será encontrar um equilíbrio entre eficiência tecnológica e desenvolvimento humano.

A substituição indiscriminada de funções iniciais pode produzir ganhos operacionais no curto prazo, mas também comprometer a construção de conhecimento e a preparação de lideranças futuras.

Por outro lado, organizações que utilizarem a inteligência artificial para ampliar a capacidade de seus funcionários, em vez de simplesmente reduzir oportunidades, poderão criar ambientes de aprendizado mais adaptados às exigências do mercado.

A conclusão central é que a formação de bons líderes continua dependendo de experiências reais, responsabilidade e convivência humana — competências que não surgem automaticamente com o avanço da tecnologia.

Fonte: CEMS — relatório “The Missing Rung? AI and the Future of Entry-Level Work”, conforme informações divulgadas pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

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