Mineração no Amazonas pode ampliar economia do estado

minera

O setor mineral do Amazonas pode ganhar espaço na diversificação econômica do estado, especialmente a partir de projetos de potássio, ouro, cassiterita e outros minerais estratégicos. A avaliação consta em proposta apresentada pelo engenheiro civil e ex-secretário de Estado de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedurb) e da Unidade Gestora de Projetos Especiais (UGPE), Marcellus Campêlo, que defende investimentos em conhecimento geológico, qualificação profissional e fiscalização ambiental.

O debate ocorre em um momento em que a Agência Nacional de Mineração (ANM) aponta a Amazônia Legal como responsável por quase metade do valor gerado pelos minerais estratégicos do Brasil. Estudo divulgado pelo órgão em 23 de julho de 2026 também identificou que substâncias como potássio, terras raras e cobalto ainda não possuem produção na região, apesar do potencial mineral.

Potássio de Autazes está entre os projetos estratégicos

Um dos principais exemplos desse potencial está em Autazes, município localizado a cerca de 113 quilômetros de Manaus. O Projeto Potássio Autazes, da empresa Potássio do Brasil, prevê a exploração subterrânea de silvinita, minério utilizado para a produção de fertilizantes.

O projeto recebeu, em abril de 2024, a Licença de Instalação nº 024/2024, emitida pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). O documento autoriza a implantação de uma mina subterrânea para classificação e concentração física do minério na zona rural de Autazes.

A iniciativa também recebeu outras autorizações ambientais para implantação da infraestrutura necessária ao empreendimento. Entre elas está uma licença para instalação de um porto fluvial na comunidade de Urucurituba, no município de Autazes, às margens do rio Madeira.

Segundo o Governo do Amazonas, a estrutura foi planejada para ter capacidade de escoar até 2,4 milhões de toneladas de cloreto de potássio por ano.

Projeto prevê geração de empregos

O potencial de geração de empregos é um dos argumentos utilizados pelo governo estadual para defender a implantação do projeto.

De acordo com dados do Governo do Amazonas, a fase de instalação da atividade deve gerar aproximadamente 2,6 mil empregos diretos. Na etapa de operação, a estimativa apresentada pelo governo chega a mais de 17 mil empregos diretos e indiretos relacionados à exploração do minério.

O Relatório de Atividades de 2025 do Governo do Amazonas também registra que o projeto recebeu a primeira licença ambiental e prevê, durante a fase de construção, aproximadamente 2,6 mil empregos diretos e 15 mil indiretos, com previsão de pelo menos 80% da mão de obra proveniente do próprio estado.

Além dos postos diretamente ligados à mineração, o desenvolvimento de uma cadeia produtiva pode gerar demanda para empresas de transporte, alimentação, manutenção, construção civil, serviços técnicos e outros segmentos.

Dependência brasileira de fertilizantes

O potássio tem importância estratégica para a agricultura porque é um dos principais nutrientes utilizados na produção de fertilizantes.

Dados divulgados pelo Governo do Amazonas indicam que o país possui dependência externa superior a 95% para o potássio utilizado na agricultura. A jazida de Autazes é apresentada pelo Estado como um projeto com potencial para abastecer até 20% da demanda nacional por mais de 30 anos.

A questão também aparece no diagnóstico mais recente da ANM sobre os minerais críticos e estratégicos da Amazônia Legal.

Publicado em 23 de julho de 2026, o estudo da agência federal aponta que a região possui forte participação na produção de minerais estratégicos, mas ainda não produz substâncias consideradas importantes para a segurança econômica e produtiva do país, entre elas o potássio.

Investimentos em pesquisa mineral

Para Marcellus Campêlo, a ampliação da mineração no Amazonas depende do conhecimento sobre as reservas existentes e da preparação da mão de obra.

Entre as medidas defendidas estão o aumento dos investimentos em estudos geológicos, apoio a universidades e centros de pesquisa, incentivo à inovação e criação de estruturas de qualificação profissional nos municípios que possam receber empreendimentos.

A proposta é preparar trabalhadores locais para ocupar vagas geradas pela atividade e, ao mesmo tempo, estimular empresas amazonenses a participar das cadeias de fornecimento e prestação de serviços.

A necessidade de ampliar o conhecimento geológico também aparece entre as conclusões da ANM. O órgão federal aponta que novos investimentos em pesquisa mineral são necessários para conhecer melhor o potencial da Amazônia Legal e desenvolver projetos considerados estratégicos.

Mineração já movimenta licenciamento ambiental

A atividade mineral já faz parte da rotina de fiscalização ambiental do Amazonas.

Segundo balanço divulgado pelo Ipaam em janeiro de 2026, o órgão emitiu 156 licenças ambientais relacionadas à mineração em 2025, considerando Licenças Prévias, de Instalação e de Operação.

O número representou crescimento de 14,7% em relação a 2024, quando foram concedidas 136 licenças. No mesmo período, o Ipaam registrou 485 notificações ambientais relacionadas às atividades sob responsabilidade da Gerência de Recursos Minerais, aumento de 28,3%.

A Gerência de Recursos Minerais do Ipaam é responsável pelo licenciamento, monitoramento e controle das atividades relacionadas ao uso de recursos minerais no estado.

O setor também realiza análises de projetos e estudos ambientais, vistorias e acompanhamento das condicionantes estabelecidas nas licenças.

Fiscalização é apontada como prioridade

A expansão da mineração também envolve o controle de atividades ilegais, principalmente o garimpo sem autorização.

Campêlo defende o uso de tecnologia para monitoramento e o fortalecimento da fiscalização ambiental. A proposta também inclui maior agilidade nos processos administrativos para empreendimentos que estejam em conformidade com a legislação.

A Agência Nacional de Mineração adotou, em maio de 2026, uma medida relacionada ao controle das atividades minerais. A diretoria da ANM aprovou por unanimidade uma alteração normativa que voltou a exigir licença ambiental prévia para a emissão de novas Guias de Utilização.

O instrumento é utilizado em situações específicas e, segundo a agência, não deve substituir a concessão definitiva de lavra.

Outros minerais estão presentes no estado

O potencial mineral amazonense não está limitado ao potássio.

Dados institucionais do Governo do Amazonas citam a presença de recursos como ouro, cassiterita, nióbio, bauxita e terras raras, além do potássio.

O ouro possui ocorrências em municípios como Apuí, Novo Aripuanã, Borba e Maués. A cassiterita aparece em áreas de Presidente Figueiredo e São Gabriel da Cachoeira.

O nióbio também é citado na região da Cabeça do Cachorro, em São Gabriel da Cachoeira. Já o caulim e o calcário aparecem entre os recursos minerais associados a municípios como Rio Preto da Eva, Presidente Figueiredo e Itacoatiara.

A existência desses recursos não significa, por si só, que todos os depósitos estejam em exploração econômica. Cada empreendimento depende de pesquisa mineral, autorização da Agência Nacional de Mineração e, quando aplicável, licenciamento ambiental pelos órgãos competentes.

Cadeias produtivas podem ampliar impacto econômico

A discussão sobre a mineração no Amazonas envolve ainda a possibilidade de ampliar os efeitos econômicos para além da extração do minério.

A instalação de grandes projetos pode gerar demanda por fornecedores, transportadores, empresas de manutenção, serviços especializados e trabalhadores capacitados.

Em 2024, por exemplo, o Governo do Amazonas e a Potássio do Brasil realizaram um encontro com mais de 80 fornecedores, cooperativas e associações interessados em oportunidades relacionadas ao Projeto Potássio Autazes.

A iniciativa mostra como empreendimentos minerais podem envolver empresas de diferentes setores na cadeia produtiva.

Para Marcellus Campêlo, o planejamento deve considerar também a participação de micro e pequenas empresas e a formação de trabalhadores nos municípios diretamente afetados.

Desenvolvimento precisa considerar comunidades e meio ambiente

O pesquisador José Alberto da Costa Machado, doutor em Desenvolvimento Socioambiental e em Economia, também defende que a mineração seja inserida em um planejamento de longo prazo para o estado.

Segundo ele, a exploração mineral precisa ser considerada juntamente com setores como bioeconomia, pesquisa e inovação.

O especialista também destaca a necessidade de combinar segurança jurídica para investimentos com proteção ambiental e diálogo com as comunidades locais.

Essa preocupação está diretamente relacionada ao processo de licenciamento. No Amazonas, o Ipaam prevê a análise de estudos ambientais, incluindo Estudos Prévios de Impacto Ambiental, Relatórios de Impacto Ambiental e planos para controle e recuperação de áreas degradadas, conforme as características de cada empreendimento.

No caso do Projeto Potássio Autazes, por exemplo, técnicos do Ipaam realizaram vistoria em abril de 2025 para acompanhar as atividades iniciais e verificar o cumprimento das licenças ambientais. A inspeção incluiu áreas do projeto e a comunidade de Urucurituba, próxima à futura estrutura de extração e beneficiamento.

Amazônia tem potencial, mas produção ainda é concentrada

O diagnóstico divulgado pela ANM em julho de 2026 mostra que a Amazônia Legal já possui papel relevante na mineração brasileira, mas a produção está concentrada principalmente em ferro, bauxita, cobre e ouro.

Entre 2006 e 2024, foram investidos R$ 40,4 bilhões em minas e usinas de beneficiamento de minerais estratégicos na Amazônia Legal, sem considerar o minério de ferro.

No mesmo período, os investimentos em pesquisa mineral chegaram a R$ 4,9 bilhões, sendo 65,8% destinados ao ouro e 19,1% ao cobre.

A ANM também aponta a necessidade de ampliar a pesquisa, melhorar a segurança regulatória e desenvolver projetos estruturantes para que outros minerais estratégicos possam entrar na cadeia produtiva.

Próximos passos

No Amazonas, a expansão do setor mineral depende de diferentes etapas. Projetos precisam passar por pesquisa mineral, análise regulatória, licenciamento ambiental e fiscalização antes de avançarem para as fases de exploração e operação.

No caso do potássio de Autazes, parte dessas etapas já avançou, com licenças de instalação emitidas pelo Ipaam e obras de infraestrutura previstas para apoiar o empreendimento.

Ao mesmo tempo, os órgãos responsáveis continuam tendo papel central no acompanhamento ambiental e no cumprimento das condicionantes estabelecidas nos processos de licenciamento.

Para o Amazonas, os dados oficiais indicam que a mineração já representa uma frente econômica existente e que projetos como o de Autazes podem ampliar sua participação. O desenvolvimento dessa atividade, entretanto, envolve simultaneamente geração de empregos, qualificação profissional, pesquisa, fiscalização, segurança regulatória e proteção ambiental.

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