Seca aumenta risco de falta de energia em municípios do Amazonas

seca

A seca dos rios pode dificultar o transporte de combustível utilizado por usinas termelétricas e aumentar o risco de falta de energia em municípios do interior do Amazonas. O cenário preocupa principalmente localidades atendidas por sistemas isolados, onde a geração depende do abastecimento regular das usinas e o transporte fluvial é uma das principais formas de levar diesel até as unidades.

Diante das dificuldades de navegação provocadas pela vazante em alguns rios amazônicos, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou, em setembro, a antecipação de recursos para a formação de estoques estratégicos de combustível. Ao todo, foram previstos 42,35 milhões de litros, com impacto estimado de R$ 308,4 milhões na Conta de Consumo de Combustíveis (CCC).

A medida busca garantir que as termelétricas tenham combustível suficiente durante o período de estiagem. Caso o transporte seja interrompido ou o abastecimento não consiga acompanhar a necessidade das usinas, localidades que dependem desses sistemas de geração podem enfrentar interrupções no fornecimento de energia.

Seca pode comprometer abastecimento de termelétricas

O principal problema provocado pela seca não está diretamente no funcionamento das usinas, mas na logística necessária para abastecê-las.

Com a redução do nível dos rios, determinados trechos ficam mais difíceis de navegar. Embarcações podem ter limitações de carga e algumas rotas podem exigir planejamento adicional, aumentando a dificuldade para levar combustível até municípios mais distantes.

No Amazonas, essa questão ganha importância porque existem localidades que não estão conectadas ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Nesses sistemas isolados, a geração local é essencial para garantir o fornecimento de eletricidade à população.

Quando uma usina depende do recebimento contínuo de combustível para funcionar, qualquer interrupção prolongada na cadeia de abastecimento pode afetar a capacidade de geração.

Por isso, a redução da navegabilidade durante a estiagem representa um risco indireto para o fornecimento de energia.

Municípios do interior podem ser afetados

O risco não se aplica de maneira uniforme a todos os municípios do Amazonas.

Manaus e outras localidades conectadas ao Sistema Interligado Nacional possuem uma estrutura de fornecimento diferente daquela encontrada em municípios que dependem de sistemas isolados. Por isso, não é correto afirmar que a seca coloca todo o estado sob risco de apagão.

A preocupação está principalmente nas localidades onde a geração térmica depende do transporte de combustível por rios.

Nesses municípios, a combinação entre vazante acentuada, dificuldade de navegação e demora na reposição dos estoques pode aumentar a possibilidade de interrupções no fornecimento.

É justamente para reduzir esse risco que a Aneel determinou a formação antecipada de estoques e, posteriormente, reforçou as exigências de planejamento para os sistemas isolados.

Aneel autorizou 42 milhões de litros de combustível

A decisão aprovada pela Aneel em 8 de setembro de 2026 autorizou a antecipação de recursos para a compra de combustível destinado às usinas que atendem sistemas isolados no Amazonas.

Os volumes aprovados foram:

  • Aggreko: 36.431.302 litros;
  • Powertech: 4.240.000 litros;
  • Oliveira Energia: 1.687.000 litros.

No total, são 42.358.302 litros de combustível.

O impacto estimado é de R$ 308,4 milhões na Conta de Consumo de Combustíveis. A operação foi criada para antecipar a formação dos estoques e reduzir a exposição das usinas às dificuldades de abastecimento durante a vazante.

Os recursos são destinados diretamente aos fornecedores de combustível, mediante comprovação das compras. A decisão também prevê a devolução dos valores à CCC em cinco parcelas mensais, corrigidas pelo IPCA.

Transporte fluvial é essencial para abastecimento

A importância dos rios para o fornecimento de combustível ajuda a explicar a preocupação das autoridades.

Segundo o Ministério de Portos e Aeroportos, aproximadamente 90% do combustível consumido na Amazônia depende do transporte fluvial em algum momento da cadeia de distribuição.

A mesma logística é utilizada para abastecer usinas termelétricas responsáveis pelo atendimento de sistemas isolados.

Quando os rios apresentam níveis mais baixos, o transporte pode ficar mais complexo. Em alguns trechos, as embarcações precisam reduzir a carga transportada ou adaptar a operação às condições de navegabilidade.

Para as termelétricas, isso significa que o planejamento dos estoques precisa considerar não apenas o consumo diário das usinas, mas também o tempo necessário para que uma nova carga de combustível consiga chegar ao destino.

Se a reposição não ocorrer antes do esgotamento do estoque disponível, a capacidade de geração pode ser comprometida.

Aneel reforçou estoque e equipes para os sistemas isolados

A preocupação continuou em setembro.

Em 29 de setembro, a Aneel determinou planos especiais de atendimento para o período das eleições de 2026. Entre as orientações destinadas aos sistemas isolados está a manutenção de estoque de combustível suficiente para garantir autonomia adequada das usinas.

A agência também determinou a reserva de peças e materiais, o reforço das equipes de operação e manutenção e a comunicação entre geradoras e distribuidoras em situações de desligamento.

A determinação considera justamente as dificuldades de navegação existentes em alguns rios da Amazônia.

Embora a medida tenha sido anunciada no contexto da segurança do fornecimento durante as eleições, ela também evidencia a preocupação do setor elétrico com a logística de abastecimento das localidades isoladas.

Falta de combustível pode provocar interrupção

Em um sistema isolado, a disponibilidade de combustível está diretamente relacionada à capacidade de geração de uma usina termelétrica.

Por isso, o risco provocado pela seca pode ser explicado em uma sequência simples: rios mais baixos dificultam a navegação; a navegação limitada dificulta o transporte de combustível; estoques menores aumentam a vulnerabilidade das usinas; e a falta de combustível pode comprometer a geração de energia.

Isso não significa que uma interrupção esteja confirmada ou que todos os municípios isolados enfrentarão apagões.

O cenário depende da evolução dos níveis dos rios, das condições de navegação, dos estoques disponíveis, da capacidade de armazenamento e da eficiência das medidas adotadas pelos agentes responsáveis pela geração e distribuição.

A antecipação dos estoques determinada pela Aneel justamente procura evitar que essa cadeia seja interrompida.

Níveis dos rios exigem monitoramento

Os dados hidrológicos mais recentes também mostram que a situação não é igual em toda a Amazônia.

Em boletim atualizado em 21 de setembro, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) informou que o processo de vazante ocorria em grande parte da região dentro do comportamento esperado para o período.

A maior parte dos pontos monitorados apresentava níveis considerados dentro do esperado para a época. O cenário, portanto, não permite afirmar que todo o Amazonas esteja enfrentando uma situação extrema de seca.

Mesmo assim, a navegabilidade de determinados rios e trechos pode ser afetada antes que exista uma crise hidrológica generalizada.

Para o setor elétrico, essa diferença é importante. Uma dificuldade localizada de navegação já pode gerar problemas logísticos para uma usina que depende daquele determinado corredor fluvial para receber combustível.

Risco é maior em localidades dependentes de sistemas isolados

O Amazonas possui uma extensa rede de municípios e comunidades com diferentes formas de atendimento energético.

Enquanto áreas integradas ao Sistema Interligado Nacional contam com uma estrutura de transmissão mais ampla, localidades isoladas dependem de soluções próprias de geração e abastecimento.

É nessas áreas que a estiagem pode representar maior vulnerabilidade.

Se a vazante impedir ou dificultar por período prolongado a chegada do combustível, a autonomia das usinas pode ser reduzida. Em uma situação extrema, o esgotamento dos estoques pode resultar na redução ou interrupção da geração.

Por isso, a possibilidade de municípios ficarem sem energia em razão dos efeitos da seca sobre o transporte de combustível deve ser tratada como um risco operacional que está sendo monitorado pelas autoridades, e não como uma previsão de apagão.

Medidas tentam evitar interrupções durante a estiagem

Além da Aneel, outros órgãos federais vêm acompanhando os efeitos da estiagem sobre a logística de combustíveis na região amazônica.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) passou a acompanhar as condições hidrológicas e seus possíveis efeitos sobre a logística de abastecimento. O órgão também participou do planejamento de contingência para os sistemas isolados do Amazonas.

A estratégia adotada pelo setor é antecipar problemas antes que eles afetem a população.

No caso das termelétricas, isso significa reforçar estoques, organizar rotas de abastecimento, manter equipes preparadas e monitorar continuamente as condições dos rios.

O objetivo é evitar que a queda dos níveis dos rios se transforme em uma interrupção no fornecimento de combustível e, consequentemente, em uma interrupção no fornecimento de energia.

Enquanto a estiagem avançar, a situação das rotas fluviais e dos estoques das usinas continuará sendo um dos principais pontos de atenção para garantir o atendimento das localidades do interior do Amazonas.

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