O Amazonas ainda enfrenta desafios significativos na gestão de resíduos sólidos, especialmente nos municípios do interior do estado. Atualmente, nenhum dos 61 municípios do interior possui aterro sanitário controlado, e a destinação do lixo ocorre, em grande parte, em lixões a céu aberto, situação que gera impactos ambientais e riscos à saúde pública.
A avaliação é do engenheiro civil e especialista em Saneamento Básico e Governança e Inovação Pública, Marcellus Campêlo, segundo vice-presidente do União Brasil Amazonas. Segundo ele, a estruturação de políticas públicas para o manejo adequado dos resíduos sólidos é uma necessidade urgente para garantir qualidade ambiental e melhores condições de vida para a população.
Lixões ainda predominam nos municípios do interior
Os lixões continuam sendo a principal forma de descarte de resíduos sólidos nos municípios do interior amazonense. A prática ocorre em desacordo com a legislação ambiental brasileira e representa um desafio para a gestão pública local.
A destinação inadequada dos resíduos pode provocar contaminação do solo, dos lençóis freáticos e dos recursos hídricos, além de contribuir para a proliferação de vetores de doenças e para a emissão de gases de efeito estufa.
De acordo com Marcellus Campêlo, o estado precisa avançar na implementação de ações previstas no Plano Estadual de Resíduos Sólidos.
“A situação é muito preocupante. Os lixões funcionam em total desconformidade com as normas ambientais. É necessário consolidar o Plano Estadual de Resíduos Sólidos, desenvolver projetos e buscar recursos para essa área”, afirmou.
Gestão de resíduos integra o saneamento básico
A gestão de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) é considerada um dos pilares do saneamento básico. O serviço envolve atividades de coleta, segregação, transporte, tratamento e destinação final ambientalmente adequada dos resíduos produzidos pela população.
Além da gestão dos resíduos, o saneamento básico contempla o abastecimento de água potável, a coleta e tratamento de esgoto e a drenagem urbana.
Especialistas apontam que a implantação de sistemas adequados de manejo do lixo contribui para a preservação ambiental, redução de doenças e fortalecimento da economia circular, permitindo o reaproveitamento de materiais recicláveis.
Parintins enfrenta desafios na destinação do lixo
Um dos exemplos citados por Marcellus Campêlo é o município de Parintins, localizado a 369 quilômetros de Manaus.
O lixão da cidade está situado no bairro Dejard Vieira, em uma área próxima ao campus da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e ao Aeroporto Regional Júlio Belém.
Segundo Campêlo, a disposição inadequada dos resíduos no local tem gerado problemas ambientais e sanitários que exigem atenção dos órgãos públicos.
“A disposição inadequada dos resíduos tem causado problemas como contaminação do solo e do lençol freático, poluição do ar, além de riscos à saúde da população”, destacou.
A proximidade do lixão com áreas urbanas e equipamentos públicos amplia a preocupação relacionada aos impactos ambientais e à qualidade de vida da população local.
Avanços no saneamento básico em Parintins
Durante sua atuação à frente da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedurb) e da Unidade Gestora de Projetos Especiais (UGPE), até março de 2026, Marcellus Campêlo coordenou a execução de obras do Programa de Saneamento Integrado (Prosai) em Parintins.
O programa contempla intervenções voltadas à melhoria do sistema de abastecimento de água, infraestrutura urbana e recuperação ambiental.
Segundo informações apresentadas pelo ex-secretário, as ações permitiram avanços no fornecimento de água tratada para a população do município, reduzindo problemas relacionados à qualidade da água consumida pelos moradores.
Busca por recursos para a gestão do lixo
Antes de deixar os cargos no Governo do Amazonas, Marcellus Campêlo informou que Sedurb e UGPE iniciaram articulações para captar recursos destinados à gestão de resíduos sólidos nos municípios do interior.
Uma das iniciativas foi a busca de financiamento por meio do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal.
Além disso, foi estabelecida uma cooperação técnica com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com o objetivo de estruturar projetos voltados ao manejo adequado dos resíduos sólidos no Amazonas.
A parceria prevê a realização de estudos técnicos para diagnosticar a situação atual dos municípios e identificar alternativas para a implantação de soluções sustentáveis.
Cooperação técnica com o BID
O Banco Interamericano de Desenvolvimento é parceiro do Governo do Amazonas em projetos de infraestrutura e desenvolvimento urbano.
Entre as iniciativas apoiadas pela instituição estão o Programa Social e Ambiental de Manaus e Interior (Prosamin+) e o Programa de Saneamento Integrado (Prosai), executado em municípios como Maués e Parintins.
Segundo Campêlo, a cooperação técnica para resíduos sólidos não terá custos para o Governo do Estado nesta fase inicial.
“O Banco vai realizar um estudo técnico para levantar informações e apontar soluções para o manejo de resíduos no estado, sem custos para o Governo do Amazonas. Os resultados devem subsidiar, futuramente, uma possível operação de crédito para implantação de melhorias na área”, explicou.
Economia circular e redução de emissões
A iniciativa faz parte de um programa internacional do BID voltado à promoção da economia circular e à redução dos impactos ambientais causados pelo descarte inadequado de resíduos.
O objetivo é apoiar governos na preparação de projetos que reduzam as emissões de gases de efeito estufa, especialmente o metano, um dos principais gases relacionados ao aquecimento global.
A implementação de sistemas modernos de gestão de resíduos também pode ampliar oportunidades de reciclagem, geração de renda e fortalecimento das cadeias produtivas ligadas ao reaproveitamento de materiais.
Com a ausência de aterros sanitários nos municípios do interior e a manutenção de lixões a céu aberto, especialistas apontam que a estruturação de políticas públicas para resíduos sólidos será um dos principais desafios ambientais e sanitários do Amazonas nos próximos anos.







