Unesco alerta que IA pode reduzir em até 24% as receitas da indústria musical

O relatório da Unesco sobre IA divulgado em 23 de fevereiro de 2026 aponta que o avanço da inteligência artificial pode reduzir em até 24% as receitas globais da indústria musical até 2028. O levantamento, realizado pela UNESCO com dados de mais de 120 países, também indica impacto no setor audiovisual e no financiamento público da cultura, devido à expansão de conteúdos produzidos por sistemas automatizados.

O estudo integra o documento Re|thinking Policies for Creativity, que analisa mudanças estruturais nas indústrias culturais e criativas diante da transformação digital.

Impacto da IA nas receitas da indústria criativa

Segundo o relatório, a produção crescente de conteúdos por inteligência artificial generativa tende a alterar o modelo econômico do setor cultural. A estimativa é de perdas de até 24% nas receitas de criadores musicais e 21% no audiovisual até 2028.

A Unesco aponta que o aumento da oferta de conteúdos automatizados amplia a concorrência digital e pressiona a remuneração de artistas e profissionais criativos. O cenário também eleva riscos relacionados à violação de direitos autorais e propriedade intelectual.

Dados do levantamento mostram que as receitas digitais passaram de 17% do rendimento dos criadores em 2018 para 35% atualmente, indicando mudança acelerada na forma de consumo e monetização cultural.

Financiamento público e desigualdades digitais

O estudo da Unesco sobre inteligência artificial destaca que o financiamento público direto para a cultura permanece abaixo de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) global, com tendência de redução.

De acordo com o diretor-geral da organização, Khaled El-Enany, o cenário exige revisão das políticas culturais para proteger a produção artística em um ambiente digital em rápida transformação.

O relatório também identifica desigualdades entre países. Enquanto 67% da população em países desenvolvidos possui competências digitais consideradas essenciais, apenas 28% dos países em desenvolvimento apresentam o mesmo nível de capacitação.

Mudanças no mercado cultural global

O comércio internacional de bens culturais alcançou US$ 254 bilhões em 2023, sendo 46% das exportações originadas em países em desenvolvimento. Apesar disso, essas nações representam pouco mais de 20% do comércio global de serviços culturais, evidenciando desequilíbrio crescente à medida que o mercado migra para formatos digitais.

Outro ponto destacado é a concentração do mercado em poucas plataformas de streaming, o que reduz a visibilidade de criadores independentes e dificulta a diversidade de conteúdos.

A mobilidade artística internacional também apresenta disparidades: 96% dos países desenvolvidos apoiam a circulação de seus artistas no exterior, mas apenas 38% facilitam a entrada de profissionais vindos de países em desenvolvimento.

Participação feminina e políticas culturais

O relatório registra avanço na presença feminina em cargos de liderança cultural, que passou de 31% em 2017 para 46% em 2024. Ainda assim, persistem diferenças regionais: mulheres ocupam 64% desses cargos em países desenvolvidos, contra 30% nos países em desenvolvimento.

Segundo a Unesco, mais de 8.100 políticas culturais já foram adotadas por países signatários da Convenção de 2005 sobre diversidade das expressões culturais, com apoio a 164 projetos em 76 países por meio do Fundo Internacional para a Diversidade Cultural.

Próximos desafios para o setor cultural

A organização avalia que o crescimento da inteligência artificial amplia o acesso a ferramentas criativas, mas aumenta a instabilidade financeira de profissionais da cultura. O relatório recomenda atualização de políticas públicas, mecanismos de proteção autoral e estratégias de financiamento para equilibrar inovação tecnológica e sustentabilidade econômica do setor.

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