No dia 24 de maio, Manaus celebrou seu 356º aniversário, firmando-se como um gigante demográfico na região Norte, abrigando uma população estimada de 2.303.722 cidadãos, conforme dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa efervescência humana e geográfica é o pano de fundo constante na obra de Milton Hatoum. Recentemente empossado como membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), o escritor é um dos mais importantes cronistas da alma manauara. Em uma entrevista concedida à mídia local, Hatoum, conhecido por sua postura carismática e aguçado senso de observação, revisitou as paisagens de sua infância e expressou a complexa dualidade de sentimentos que nutre pela capital amazonense.
Embora reconhecido por sua versatilidade como professor universitário e tradutor, a essência criativa de Hatoum reside na literatura, onde a capital do Amazonas transcende o cenário para se tornar uma protagonista moldada pela memória. Das oito obras que compõem sua bibliografia, quatro são intrinsecamente ligadas à cidade, funcionando como pilares de sua identidade literária: o seminal *Relato de um Certo Oriente* (1989), o aclamado *Dois Irmãos* (2000), o lírico *Cinzas do Norte* (2005) e a fábula urbana *Órfãos do Eldorado* (2008). Nesses romances, Hatoum não apenas mapeia a geografia física de Manaus, mas explora as profundezas da memória coletiva e as transformações sociais da metrópole ao longo do tempo, solidificando seu status como um mestre da ficção brasileira.
A decisão de se dedicar integralmente à arte da escrita exigiu um deslocamento geográfico significativo. O intelectual inicialmente se mudou para São Paulo para finalizar seu doutorado na Universidade de São Paulo (USP), mas acabou estabelecendo residência definitiva após o casamento. Em busca de maior liberdade criativa e tempo para desenvolver sua pena, Hatoum optou por se desligar da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e viver exclusivamente de seus escritos. Foi durante este período em São Paulo, entre 1999 e 2000, que ele conseguiu concluir a escrita de *Dois Irmãos*, obra que lhe renderia grande reconhecimento nacional e internacional. Apesar da distância física e da consolidação de sua carreira em outro estado, os laços emocionais impedem um rompimento total com sua terra natal.
O escritor faz questão de frisar que “sempre volta para Manaus quando pode”, citando a presença constante de parte de sua família, como sua irmã, tia e primos. Essa ligação inabalável com o clã manauara mantém o escritor enraizado nas preocupações atuais da cidade, permitindo-lhe observar as mudanças e expressar seu notório apreço, ainda que tingido por uma preocupação evidente com o futuro da metrópole amazônica e seu patrimônio cultural.
Fonte: g1 > Amazonas






