Quilombo do Curiaú Sob Cerco: Despejo Judicial Vira Confisco de 100 Hectares e Deixa Centenas de Animais À Própria Sorte

A histórica comunidade do Quilombo do Curiaú, em Macapá, Amapá, palco do segundo território quilombola titulado do país e situado em uma Área de Proteção Ambiental (APA), viveu um cenário de profundo trauma neste mês. Uma ação judicial de reintegração de posse, executada no dia 7, transformou-se, segundo relatos dos próprios atingidos, em um confisco de grandes proporções. Apesar de a determinação judicial inicial abranger a posse de apenas um hectare da propriedade em disputa, a operação resultou na desocupação forçada e na destruição de residências em uma área estimada em mais de 100 hectares, impactando diretamente cerca de 200 pessoas. A ação não apenas resultou no desalojamento de famílias, mas também gerou graves denúncias de violência, destruição de moradias e uso excessivo da força.

O cerne da controvérsia reside na gritante discrepância entre o que foi ordenado pela Justiça e o que foi de fato executado no campo. O advogado Ruy Carvalho, representante legal da coletividade, descreveu a manobra como uma “tomada de assalto”, alegando que a área total foi cercada e os acessos trancados, impedindo os agricultores de retornar às suas terras. “Era para reintegrar apenas um hectare. Mas tomaram a propriedade toda”, reforçou o jurista. Para além do desabrigo das famílias, o cenário mais cruel se desenvolveu com o destino do rebanho local. Dezenas de animais — incluindo gado, suínos e aves — foram abandonados à revelia, presos no perímetro cercado sem qualquer provisão de alimento ou água. Os moradores relataram a existência de bichos feridos e a exposição destes a riscos ambientais severos, como a presença de predadores naturais, a exemplo das onças, comuns na região da APA.

O drama pessoal sublinha a escala da perda material para estas famílias rurais. O agricultor Deusi, um dos afetados, lamentou a perda de seu sustento, que incluía cerca de 70 porcos, alguns pertencentes a terceiros. “Pedi para providenciar ajuda, mas fui impedido de entrar na área. Hoje estou na casa da minha irmã, completamente desamparado, sem chão”, desabafou. As famílias quilombolas do Curiaú continuam a alegar que a execução judicial extrapolou drasticamente seus limites originais, configurando não uma reintegração de posse parcial, mas sim uma desapropriação em massa do território tradicionalmente ocupado, onde se reivindica posse irregular por mais de 100 hectares.


Fonte: g1 > Amapá

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