Mel Brooks costuma dizer que rir é o contrário de morrer. A frase, repetida em entrevistas ao longo das últimas décadas, ajuda a explicar por que, aos 100 anos, ele continua sendo celebrado não apenas como um cineasta bem-sucedido, mas como um dos artistas que mais transformaram a maneira de fazer humor no cinema. Em uma carreira que atravessa quase oito décadas, Brooks conquistou um raro EGOT — Emmy, Grammy, Oscar e Tony —, dirigiu alguns dos filmes mais influentes da história da comédia e ajudou a formar o olhar de gerações de humoristas. Não por acaso, o centenário do diretor foi marcado por homenagens em diversos veículos e por um gesto simbólico do American Film Institute (AFI), que reposicionou Banzé no Oeste no topo de sua tradicional lista dos filmes mais engraçados da história, reconhecendo a importância da obra para o gênero.
A força desse legado é reforçada no documentário Mel Brooks: O Homem de 99 Anos, lançado pela HBO. Dirigido por Judd Apatow e Michael Bonfiglio, o filme acompanha a trajetória do cineasta desde a infância no Brooklyn até sua permanência como uma figura criativa. Mais do que revisitar sucessos, o documentário procura entender o que manteve Brooks produzindo durante tanto tempo. Para o The Hollywood Reporter, o retrato revela um artista movido menos pela provocação do que pelo afeto — alguém cuja obsessão sempre foi fazer o público rir. Já o New York Times observa que o filme também ganha força ao mostrar a solidão provocada pela morte da esposa, Anne Bancroft, e do parceiro de décadas Carl Reiner, sem transformar essa perda em melancolia permanente. O humor continua sendo apresentado como sua principal forma de enfrentar o tempo.
Essa relação entre comédia e resistência começou muito antes de Hollywood. Brooks serviu como engenheiro de combate durante a Segunda Guerra Mundial e participou da campanha que levou as tropas americanas até a Alemanha nazista. A experiência marcaria toda a sua produção artística. Enquanto muitos tratavam Adolf Hitler como uma figura intocável, Brooks escolheu fazer justamente o contrário: transformá-lo em motivo de piada. Em diferentes entrevistas, incluindo conversas recentes com o New York Times e o Hollywood Reporter, ele explicou que ridicularizar Hitler era sua maneira de se vingar de alguém que havia tentado transformar o medo em instrumento de poder. Em vez de monumentalizar o ditador, Brooks preferiu diminuí-lo.
Essa ideia aparece de maneira definitiva em Os Produtores (1967). No filme, dois produtores montam um musical chamado Springtime for Hitler, convencidos de que ninguém aceitaria uma homenagem tão absurda ao líder nazista. O plano fracassa justamente porque o público entende o espetáculo como uma sátira brilhante. A sequência se tornou um dos momentos mais lembrados da carreira de Brooks e sintetiza um princípio que atravessaria toda sua obra: o humor pode desmontar aquilo que o medo ajuda a engrandecer.
Mas reduzir Brooks ao humor político seria ignorar outra característica decisiva de seu cinema. Sua obra conciliou referências sofisticadas com o humor mais popular possível. Seus filmes dialogam com Alfred Hitchcock, James Whale, os musicais clássicos da Broadway, a literatura europeia e a história do cinema, enquanto dividem espaço com piadas físicas, trocadilhos, pastelão e até uma célebre sequência de flatulências. Essa combinação tornou-se uma de suas marcas registradas: um humor acessível sem abrir mão da inteligência.
Talvez nenhum filme represente melhor esse equilíbrio do que Banzé no Oeste (1974). Lançado em um momento em que Hollywood ainda evitava discutir abertamente o racismo, o faroeste transforma o preconceito em alvo permanente da piada. Brooks chegou a afirmar ao Hollywood Reporter que o filme podia se permitir ser ousado porque seus autores sabiam exatamente quem estava sendo ridicularizado. O personagem negro interpretado por Cleavon Little nunca é o objeto do humor; a verdadeira caricatura são os racistas incapazes de enxergar além da cor da pele. A famosa cena da fogueira, em que cowboys interrompem uma conversa séria para disputar quem produz o maior barulho depois de comer feijão, tornou-se um símbolo dessa mistura entre humor escrachado e crítica social.
Embora seja lembrado principalmente como diretor de comédias, Brooks também revelou uma sensibilidade rara para reconhecer talentos. Foi ele quem produziu O Homem Elefante, de David Lynch, insistindo para que seu nome praticamente desaparecesse da divulgação do filme, temendo que o público esperasse uma comédia. A decisão revelou outro aspecto de sua carreira frequentemente lembrado pela crítica: sua capacidade de enxergar potencial artístico onde a indústria ainda via risco.
A importância de Mel Brooks não está apenas na quantidade de clássicos que dirigiu nem na coleção de prêmios que acumulou. Seu legado reside principalmente na forma como ampliou os limites da comédia. Brooks demonstrou que era possível fazer rir sem abrir mão de comentar política, preconceito, cultura e história do cinema. Em suas mãos, até uma piada de peido podia conviver com referências sofisticadas e servir a uma ideia maior. Poucos artistas conseguiram fazer essa mistura funcionar durante tanto tempo — e menos ainda chegaram aos 100 anos ainda sendo tratados como uma referência viva do humor mundial.
Abaixo, uma lista com cinco filmes imperdíveis do diretor:
Os Produtores (1967): Primeiro longa-metragem dirigido por Brooks, revolucionou a sátira ao colocar Hitler no centro de uma comédia musical. Além de render ao cineasta o Oscar de Melhor Roteiro Original, estabeleceu um modelo de humor que influenciaria diversas gerações.
Banzé no Oeste (1974): Considerado por muitos críticos sua obra-prima, utiliza a estrutura de um faroeste para ridicularizar o racismo americano. Em 2026, o American Film Institute promoveu o filme simbolicamente ao primeiro lugar de sua lista dos maiores filmes de comédia em homenagem ao centenário de Brooks.
O Jovem Frankenstein (1974): Paródia afetuosa dos clássicos filmes de terror da Universal, combina respeito pelo material original com um humor visual sofisticado e um dos elencos mais celebrados da carreira de Brooks.
Alta Ansiedade (1977): Homenagem a Alfred Hitchcock que demonstra o profundo conhecimento cinematográfico de Brooks. O filme é frequentemente citado pelo próprio diretor como um de seus favoritos e recebeu elogios do próprio Hitchcock após uma sessão privada.
Spaceballs (1987): A sátira de Star Wars tornou-se uma das comédias mais cultuadas dos anos 1980 e ganhou nova relevância pelo humor voltado à mercantilização das franquias, tema que continua atual décadas depois.
FONTE: AGENCIA BRASILSource link







